Lágrimas sempre vão e vem

Neste 2 de setembro, meu amigo, Nivaldo Feliman Camargo, se aqui estivesse, completaria 61 anos.
Infelizmente ele não está mais entre nós. Em 10 de dezembro de 2013, ele muito antes da hora, empreenderia sua última viagem. Fomos amigos por quase 50 anos. Nossa amizade se iniciaria ainda em nossa infância e prosseguiria ao longo de nossa adolescência, quando compartilharíamos sonhos e iniciaríamos o processo de construção de nossas identidades.
Após assistirmos Easy Rider, sonharíamos em fazer uma viagem ao redor do mundo. Nunca a faríamos. Não a fazendo, pretenderíamos então, mudar o mundo. Para isso criaríamos a War and demolition, que na época mesmo sem sabermos, era uma espécie de organização proto anarquista. Não mudamos o mundo, nem sequer o arranhamos apenas, nos arranhamos.
Crescemos e encontramos pelo caminho os livros de George Orwell. Primeiro o distópico 1984, que nos apresentaria a tirania do Big Brother. Dataria daí nosso efetivo repúdio à maioria das instituições. Depois viria A revolução dos bichos, que nos levaria a compreender que o poder corrompe e que o poder absoluto, corrompe totalmente. Viriam a seguir, Admirável mundo novo, de Aldous Huxley e Nós, de Eugene Zamyatin, dos anos 20, e, uma das mais antigas distopias. No bojo da chamada abertura democrática, chegariam, finalmente ao Brasil, Laranja mecânica, livro de Anthony Burgess, que ganharia no cinema magistral adaptação, dirigida por Stanley Kubrick. Confesso que na época não entendi bem a mensagem de Burgess, o que só o faria alguns anos depois. Logo a seguir, cruzaria meu caminho outra seminal obra de Burgess, 1985, que eu logo emprestaria para Nivaldo. Foi a partir daí que compreenderíamos como o próprio Burgess acabara de nos ensinar, que a juventude era uma trapaça do tempo e que da noite para o dia, nos defrontávamos com as agruras da vida adulta. Foi também com Burgess que entenderíamos que mesmo os que contestam as instituições, também podem ser opressores e repressores, o que compeliu Nivaldo para outras viagens distópicas, como Asimov e Castañeda. Essas trips eu não empreenderia e mergulharia no anarquismo, encantado que estava com Bakunins, Proudhon e Kropotkin, cujas idéias me encantam ainda mais nestes tempos sombrios em que o fetiche da mercadoria foi sendo substituído pela sociedade do espetáculo e agora mais que nunca, como Orwell previra, pela sociedade da vigilância. Tenho a absoluta convicção de que Nivaldo se aqui estivesse, estaria ao meu lado contestando essa insanidade que assaltou, principalmente, a classe média, que ao ver frustradas suas aspirações de, efetivamente, ascender às elites, acabou por acreditar que arautos do autoritarismo, ao pulverizar as minorias, a guindará a tal status quo, ou seja, às elites.
Mas termino esses estilhaços de memória voltando à nossa adolescência, quando a ferro e fogo, começamos a construir o que seríamos. O faríamos com sangue, suor e lágrimas. O sangue seria derramado na defesa daquilo que julgávamos ser nosso sagrado território e que era constantemente assediado por intrusos que queriam usurpar o que considerávamos só nosso. O suor foi vertido na construção de nossos espaços e as lágrimas derramadas pela perda de paixões juvenis e pelo gradual desencantamento que ia se abatendo sobre nós, diante de nossa incapacidade de mudar o mundo.
As mesmas lágrimas verti neste 2 de setembro, ao relembrar de tudo isso e particularmente de meu amigo, que como disse, partiu muito antes da hora. Ainda teríamos muito o que contestar, muito com o que nos indignar.
Esses que hoje empunham a bandeira do autoritarismo, da intolerância e da opressão, desde sempre, foram muito diferentes de nós, em seus pequenos mundos nunca houve espaço para a reflexão e para o questionamento do amanhã, que como no título de um velho filme, chegou cedo demais e trazendo, para esses incautos, ilusórias soluções, que conforme o soprar do vento, virarão pó.

 

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