Livre Pesar

Toda ditadura possui uma obsessão. Na Roma antiga deram ao povo pão e circo. Eles mantiveram a população ocupada com entretenimento. Outras ditaduras usam outras estratégias para controlar idéias, conhecimento…
Como eles fazem isso? Educação de baixa qualidade; limitam a cultura; censuram a informação; limitam todos os meios de expressão do indivíduo. Isso é um padrão, que repete a si mesmo por toda a história. Não pense que só porque você e eu votamos, vivemos uma democracia. O voto é mero instrumento sabiamente utilizado pelos eternos donos do poder. O que realmente elege é o dinheiro e os eleitos são escolhidos pelos donos do dinheiro – classe essa a qual não pertencemos. São as grandes corporações, os mega empresários que definem quem será o Presidente, o Governador, Senador, Deputado ou Prefeito. Esses serão seus gerentes, seus empregados, devidamente instalados e instruídos seguirão obedientes as diretrizes traçadas por aqueles.
As autarquias, estatais, secretarias de estado, empresas mistas, fundações, serão aparelhadas de forma voraz por escolhidos comprometidos em lhes seguir as ordens cegamente. A gestão como um todo sempre será voltada a atender os patrões, esses sim donos absolutos do poder. Se determinada peça não atende ao pedido, é simples: troca-se a peça e a farra segue. Assim é o Brasil de hoje e também foi o de ontem. Voltemos a 1911, recuemos 100 anos e encontraremos Policarpo Quaresma (personagem de Lima Barreto), um nacionalista, um homem íntegro, correto e de uma honestidade que beirava a inocência, pois acreditava nos valores do Brasil como nação acima de qualquer outra coisa. Taxado de nacionalista, o era! Ingênuo também e idealista, enraizado e enredado nas entranhas da estrutura social e política do inicio do século passado, no período do Pré-Modernismo no Brasil da Primeira República.
O Major Quaresma era um ser inserido, mas não adaptado, por não se encaixar nos padrões, como se negam muitos de nós hoje a se encaixar nos chamados padrões ou podridões atuais. Como Policarpo Quaresma decepcionados estamos, descrentes e vergonhosamente pessimistas tanto quanto do presente como do futuro. Que presente! Qual futuro? Como em 1911, nada diferente de hoje, quando se acreditava que sermos superior a Inglaterra era só uma questão de tempo, de pouco tempo. Tinha e temos todos os climas, todos os frutos, todos os minerais e animais úteis, as melhores terras de cultura, a gente mais valente, mais hospitaleira, mais inteligente e mais doce do mundo. Tínhamos o mais absoluto otimismo e a grande certeza de que sim, seríamos a Europa melhorada, sem guerras, sem terremotos, tropical e faceira. 100 anos se passaram e cá estamos infelizes e atrapalhados, confusos, sem rumo, sem sorte nem norte. Como pioramos e constato isso com dor e com a face molhada no amargor das lágrimas que teimam em escorrer chegando a meus lábios, que crispados seguram o grito que me nego a dar. Por mais otimista que teimo em ser, não consigo esconder o pessimismo que me corrói.
Como acreditar em um país, em uma justiça onde nas prisões as castas continuam a se distinguir, onde políticos e empresários se confundem em ser corrupto ou corruptor, degustando queijos, camarões e até vinhos – porque não? Afinal são cafajestes de alta casta, ontem donos do poder. Hoje presos, mas presos diferentes, muito diferentes. Ainda assim, presos, isso um pouco me conforta, mas não me anima.
Há muito mais de 100 anos tentam acabar com o Brasil e me parece que finalmente estão obtendo sucesso.
Na Roma antiga, pão e circo. No Brasil presente, só circo. No Brasil de hoje, os do poder acionam luzes natalinas, desfilam e discursam ladeados por velhos Noéis, enfeitam ruas e praças na busca insana de ofuscar a cruel realidade. Como pano de fundo a desculpa de falso e exagerado otimismo. Gastam o que não gasta na educação, princípio básico para tornar uma nação verdadeiramente feliz. Infelizes, desgraçados infelizes que fabricam neve em um país tropical, usurpando uma cultura que não é nossa e em nossa cultura nada investem. Tudo muito bonito, isso faz bem, mas é fugaz. A verdade? O que realmente querem é se manter no poder, ser o salvador que o Salvador não quer ser. Por falar nisso é Natal, mas afinal, quem é Jesus???

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