Mais alguns fragmentos

 Há muitos anos que não tenho notícias da família de Isabel e Pedro Kuns. Sei apenas que Pedro já é falecido há alguns anos. Eles eram meus vizinhos, moravam na Rua João Gualberto, bem ao lado do prédio de seu Silvio Araújo. Se bem me lembro eles tinham três filhos, Marli, que era de minha idade ou, um ano mais velha, Mário que era um ou dois anos mais novo do que eu e Emerson que acho que era uns 10 anos mais novo do que eu.
Eles eram nossos amigos e assim íamos algumas vezes a casa deles. Acho que por volta de 1972, Nivaldo Camargo, com apenas 14 anos, se apaixonou por Marli, o mesmo se sucedendo a Gilberto Preissner, que era um pouco mais velho do que nós, creio que já tinha uns 16 anos, e também era meu vizinho. Ele morava na Barão do Cerro Azul, quase em frente de minha casa. Nessa época Nivaldo e Beto eram bem amigos, imagino que os aproximava e ao mesmo tempo afastava, era a paixão por Marli. Era estranho o fato deles disputarem a atenção dela e irem juntos todo santo dia a casa dela. Beto, talvez por ser um pouco mais velho do que nós, os outros garotos, não participava de nosso convívio, da turma da Barão, que se reunia diariamente em frente a casa dos Murara, na esquina da Barão com a Cel. Gualberto. Eu tinha o disco da trilha sonora internacional da novela Carinhoso e Nivaldo o emprestava para ouvir na casa de Marli. Ele gostava particularmente, da canção Manhattan, um dos grandes Standards da música norte americana e que na trilha da novela era interpretada por Sally Baldwin. Que ouço enquanto escrevo esses estilhaços de memória. Para encurtar a história, acho que Marli os olhava apenas como amigos, até que a paixão deles, pelo menos a de Nivaldo, muito mais próximo de mim, acabou. Também acabou a amizade entre eles, que um dia por um motivo banal se desentenderam e Beto atacou Nivaldo, que não revidou, limitando-se apenas a se defender.  Houve uma segunda briga entre eles e Nivaldo mais uma vez não reagiu, saindo bastante machucado e angariando uma infecção nos ouvidos. Dias depois , quando ele apareceu, perguntamos por que ele não revidava e ao que ele respondeu que considerava Beto seu amigo e que por isso não havia reagido. Nós contrapusemos, perguntando que amigo era aquele que batia nele, mesmo sem ele reagir. Nivaldo respondeu que agora havia entendido que Beto não era seu amigo, mas que mesmo assim, nada faria para provocá-lo, mas que desta vez reagiria. Algumas semanas depois, nova briga e desta vez com Nivaldo reagindo e levando a melhor. Definitivamente, estava acabada a amizade entre eles e a paixão por Marli.
 Mas outros três episódios me fizeram, nestes últimos dias, lembrar da família Kuns, em especial de Marli, Mário e de sua mãe.  Em determinado período de nossa adolescência, jogávamos canastra e ouvíamos música, todas as noites, na churrasqueira da casa dos Murara.  Eu  levava os discos, Nivaldo sua vitrola portátil Phillips e os irmãos Paulo e Zinho entravam com a casa. A churrasqueira, embora coberta, era aberta e certa noite recebemos uma saraivada de limões que eram atirados em nós, do quintal dos Murara. Quando íamos verificar, não havia mais ninguém lá. Isso se sucedeu por umas três noites e como os atiradores evaporavam no ar, começamos a desconfiar de Mário que era quem morava mais próximo dos Murara e assim tinha tempo de se refugiar, com seus asseclas, em sua casa. Uma noite fizemos uma espera, colocamos Marcos, o irmão mais novo dos Murara no lugar de Nivaldo, enquanto esse se escondeu no quintal. Mais ou menos na mesma hora das noites anteriores, lá vieram os limões. Só que desta vez Nivaldo agarrou um deles, José Roberto Machado, o Piche e meu vizinho de cerca. Nivaldo gritou que havia mais dois e nos embrenhamos no quintal, na perseguição a dupla, quando estou bem perto de um deles, que era nosso bravo Mário, alguma coisa bate com força em meu rosto e me derruba. Levanto e continuamos a perseguição. Ali na Praça Coronel Amazonas desistimos de alcançá-los, já que eles tinham boa dianteira. Quando voltamos para a luz da churrasqueira, meus amigos me disseram: seu rosto está cheio de sangue, assim como sua camisa e calça. Só então percebemos que eu no afã de agarrar os livres atiradores, havia me enroscado em um cordão de estender roupas, que era o que havia me derrubado e rasgado meu rosto, bem ao lado do olho direito. Fui pra casa fiz, eu mesmo, um curativo, troquei de roupa e voltei para a canastra, com o olho praticamente fechado pela contusão. Claro que nada fizemos aos atiradores que ainda riram de nossa cara, dizendo que demoramos para descobrir que eles eram os autores da brincadeira e que nós não havíamos conseguido apanhá-los. Rimos disso, meu olho permaneceu quase fechado por mais alguns dias e ainda hoje tenho uma pequena cicatriz no canto externo de meu olho direito.
 Os outros dois episódios, narro em, minha próxima crônica. Até lá.

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