Mandar lembranças

Das maneiras de mandar cumprimentos a uma pessoa que está distante, sempre achei mais poética e gentil a expressão “mande lembranças”. Embora até mesmo dicionários célebres registrem “cumprimentos” como um dos significados da palavra “lembranças”, parece-me que esse uso está rareando. Já não ouvimos com tanta frequência tal pedido nas despedidas de uma conversa. Que pena.
Mandar lembranças é uma expressão plurissignificativa, que evoca muitos sentidos, porque lembranças, vem do verbo lembrar: trazer à memória, recordar, aquilo que comprova a ocorrência de fato passado. Mandar lembranças é mais do que dizer: mande um abraço ou mande minhas saudações. Mandar lembranças é como um sopro na memória, inspirar a que o ouvinte traga a memória aquilo que está adormecido.
É bonito porque outro sentido de “lembrança”, segundo o dicionário Aulete é “um pequeno objeto que se dá ou se guarda para fazer lembrar alguém ou algo”. Note-se que “lembranças” no sentido de cumprimento é palavra utilizada no plural, como registra o mesmo dicionário:

Dar/mandar lembranças
1 Pedir à pessoa com quem se fala ou a quem se escreve que cumprimente ou transmita saudação a outrem (em nome daquele que fala ou escreve)

Mandar lembranças a alguém é, por fim, presenteá-la com uma pequena avivada na memória, suscitando as mais diversas possibilidades de recordações, embora esse uso esteja cada vez mais raro e quando ocorre pucas vezes a mensagem chega ao seu destino final.
Falando em lembranças, um gênero de texto que sumiu nos útimos anos: o Caderno de Recordações, um caderninho que entregávamos para os amigos escreverem uma poesia, uma mensagem ou qualquer coisa que quisessem registrar. Antes das Redes Sociais, em que não se podia mandar um e-mail ou uma mensagem no whatsapp, as palavras pareciam ser mais preciosas, pois tínhamos poucas linhas para registrar aquilo que gostaríamos que ficasse guardado. E ficaria.
A língua muda constantemente, o que a torna viva e colorida. Mas algumas delicadezas também vão se perdendo e sendo substituídas por outras expressões, ou simplesmente sendo subtraídas porque a sociedade muda, mudam os comportamentos e a língua, que está a serviço do social, é reorganizada. Assim, essas pequenas delicadezas se tornam lembranças e recordações.

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