ME DEIXA, NÃO: DEIXE-ME!

 

            Meu colega Josoel chamou minha atenção para o uso que fazemos do imperativo. Observou que em filmes dublados em português, o que se ouve por vezes não é o que está escrito na legenda: O ator falou “Sai daqui!”, enquanto que a legenda mostrava “Saia daqui!” Não faz diferença quanto ao sentido, o que incomoda é a gramática.

Afinal, devo dizer “Ouça o que eu falo” ou “Ouve o que eu falo”? Ambas as frases são perfeitas, contanto que você seja coerente com a forma pela qual se dirige à pessoa que deve ouvir. Explico: Se trato a pessoa com quem falo por “você”, direi: “OUÇA o que eu falo, VEJA o que eu mostro, VENHA até aqui, TRAGA o material”, pois para concordar com o pronome que uso (você), considerado um pronome de 3ª pessoa, observa-se a conjugação do futuro do subjuntivo: Que eu ouça (1ª pessoa), que tu ouças (2ª pessoa), QUE ELE OUÇA (3ª pessoa). Portanto, se trato o ouvinte/leitor por “você”, é essa a forma que vou usar no imperativo, quando dou uma ordem, faço um pedido ou uma recomendação.

Se, no entanto, como muitos catarinenses e gaúchos, trato a pessoa com quem falo por “tu”, a forma verbal muda. Nesse caso considero a segunda pessoa (tu) do presente do indicativo: Eu ouço (1ª pessoa), TU OUVES (2ª pessoa), retirando o “S” final. Direi, portanto: “OUVE o que eu falo, VÊ o que eu mostro, VEM até aqui, TRAZ o material”. TU ou VOCÊ, cada um escolhe, mas escolhe junto a concordância.

E como fica o imperativo negativo? Totalmente vinculado à conjugação do verbo no presente do modo subjuntivo. Se trato meu interlocutor por “você” (3ª pessoa): “Não VENHA, não DIGA nada, não me PROCURE!” Se, porém, prefiro utilizar “tu” (2ª pessoa): “Não VENHAS, não DIGAS nada, não me PROCURES!”

Estamos mais acostumados, no Brasil, a utilizar o pronome “você”, sendo que o uso do “tu” está desaparecendo; por isso o uso do “tu” pode significar uma cilada. E dela não escapam nem mesmo alguns dos nossos mais reconhecidos compositores, como Milton Nascimento e Gilberto Gil, em sua faixa chamada Dinamarca. Ao se dirigirem a um capitão do mar, dizem: “[…] lembres que o mar também tem coração”. Como o que está sendo usado é o imperativo afirmativo, o verbo deveria ser conjugado como LEMBRE (você) ou LEMBRA (tu). Ainda na mesma música, continuam: “Depois do dia em que tu partistes”; se o pronome usado é “tu”, o verbo deveria ser PARTISTE, pois “partistes” com o “s” final seria utilizado com o pronome “vós”, que é plural.

É isso mesmo, o “tu” não é para qualquer um! Chico Buarque, em seu Fado tropical, também tropeçou no imperativo, desta vez na forma negativa: “Mas não sê tão ingrata, não esquece quem te amou”. Façamos o exercício: Se o imperativo negativo é formado (seja para “você” ou para “tu”) a partir do presente do subjuntivo (Que eu seja, que tu sejas, que ele seja; que eu esqueça, que tu esqueças, que ele esqueça), os versos deveriam ser escritos “Mas não SEJAS tão ingrata, não ESQUEÇAS quem te amou”.

Nossa tendência, atualmente, é igualar o imperativo negativo ao afirmativo. Ao tratarmos uma pessoa por “você”, é o correto: “Fique!” e “Não fique!”. E então queremos fazer o mesmo se o pronome de tratamento usado for “tu”: “Volta!” e “Não volta!” (Quando deveria ser “Não voltes!”). Acontece que os gramáticos tradicionais não concordam (ainda) com esse uso, e as bancas de concursos, por conseguinte, farão o mesmo.

O uso do pronome oblíquo “me”, que aparece no título, já é outra história. Veremos que, no Brasil, prefere-se sempre o uso da próclise na fala: me diga, te amo, diferente da fala em Portugal, onde, por motivos fonológicos, prefere-se o uso da ênclise (além do uso do “tu”): diz-me, amo-te. De acordo com o ilustre Professor Cláudio Moreno, trata-se de um xibolete, mas isso é assunto para outro dia.

Apesar da fala preceder a escrita nas mudanças linguísticas, para a escrita culta é importante lembrar que não se inicia a frase com pronome átono; mesmo no Brasil, para escrever corretamente, vamos deixar o pronome seguindo o verbo, se o verbo inicia a frase; mais ainda, vamos cuidar, no caso do imperativo, se ele diz respeito a “você” ou “tu”: Você – Diga-me, amo você; Tu – Diz-me, amo-te.

 

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