Não temos nenhuns problemas, mas bastantes dúvidas

Lembro-me de quando lecionava Português para uma turma de cabos do Exército que se preparavam para o concurso a fim de ingressar na Escola de Sargentos. Estudávamos a gramática normativa, e ao verem uma frase em que se lia a palavra “bastantes” perguntaram: – Está errado, né, professora?
Acostumamo-nos a usar, na linguagem falada, um bastante invariável, que serviria para substituir muito, muita, muitos ou muitas. Dizemos que temos bastante livros, que compramos bastante revistas. E estranhamos que alguém diga bastantes. Afinal, se é bastante já é muito, não é necessário o plural. Certo? Errado!
Será que Fernando Pessoa errou ao escrever em seu poema “A espantosa realidade das coisas” a frase “Tenho escrito bastantes poemas.”? Estranhamos o uso de bastante no plural porque essa forma tem caído em desuso no Brasil; mas em Portugal ela continua sendo bastante usada. Epa! Eu acabei de escrever bastante sem S no final? A palavra bastante pode ser advérbio, como nessa última frase, sendo então invariável e não aceitando forma de plural. Nesse caso ela poderia ser substituída por muito, que é outro advérbio, também invariável. No caso da frase do Pessoa, porém, ela é um pronome indefinido, indicando uma quantidade indefinida de poemas. Para tirar a dúvida, um macete: é só substituir a palavra bastante por muito; se muito for para o plural, bastante também irá.
Há ainda outro uso da palavra bastante, desta vez como adjetivo. Se quem crê é crente e o que corta é cortante, então o que basta é bastante. Na frase “Já temos cadeiras bastantes” estamos dizendo que o número de cadeiras disponíveis já basta, já é suficiente. Sendo adjetivo, bastante vai concordar em número com o substantivo a que se refere.
Para juntar mais lenha à fogueira, veremos mais um caso semelhante. Observe a frase de Machado de Assis no romance “Helena”: “Simples era a mobília, nenhuns adornos, uma estante de jacarandá, com livros grossos in-quarto e in-fólio; uma secretária, duas cadeiras de repouso e pouco mais.” Por que ele usou o termo nenhuns? Trata-se novamente de um pronome indefinido, e não de um advérbio, por isso está na forma plural.
Nenhuns indica o contrário de alguns. Dizemos Alguns de nós podiam ter saído, mas nenhuns de nós saíram. Se ambos os pronomes se referem a nós, que é plural, e são seguidos pelo verbo que concorda com eles no plural, é lógico que se falamos alguns também falaremos nenhuns. Pode ser lógico e correto gramaticalmente, mas não soa muito bem deste lado do Atlântico. Preferimos utilizar somente o singular. Qualquer um de nós diria Não consigo encontrar nenhum vestígio, ou então Não consigo encontrar vestígio algum. Já Não consigo encontrar nenhuns vestígios requer coragem, convicção do conhecimento gramatical, do tipo que só professor de Português e linguista pode ter. Porque a palavra bastante traz consigo, para nós, a ideia de algo abundante, que já implica plural.
Não se trata de inovações, ou novas tendências, visto que Fernando Pessoa em Portugal e Machado de Assis no Brasil já os utilizavam. Nenhuns e bastantes sempre estiveram lá, nas gramáticas, mas é diferente vê-los (ou ouvi-los) assim, sendo usados sem embaraço hoje em dia. Não obstante, são temas frequentes de provas de Português em concursos.
São casos um tanto aborrecidos das concordâncias. Quer ver mais um? A flexão da palavra “meio”. Existem meias palavras, meias verdades e meias brancas e até meias ofensivos, mas não existem “meias nervosas”. Explico cada exemplo: palavras e verdades pela metade tornam-se meias palavras e meias verdades; as meias que calçamos podem ser brancas ou de qualquer outra cor; e os meio-campistas são chamados de meias. Como numerais, significando metade(s), as formas meio (dia), meia (hora), meios (olhares) e meias (garrafas), concordam em gênero e número com seus substantivos. Como advérbio de intensidade, porém, meio é invariável: A atleta não correu porque estava meio cansada. Veja que eu poderia substituir meio por muito, mas não por muita.
Fiquemos por aqui nesse tópico meio confuso, que já nos causou bastantes preocupações.

 

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