Nem mais, nem menos

Após o exame de visão, receita na mão, é preciso ir à ótica comprar ou encomendar um… óculos? Um par de óculos? Ou será um óculo? Tão simples, tão cotidiano, e mesmo assim ficamos em dúvida. Considerando a correção gramatical, a palavra usa-se sempre no plural; portanto: “Comprei óculos, estes são meus óculos”. Essa é a regra vigente.
“Óculos” é representante de um tipo de substantivo classificado como plurale tantum, expressão latina que significa “apenas plural”. Integram esse grupo também as seguintes palavras: cócegas, núpcias, afazeres, parabéns, anais, condolências, arredores, pêsames, fezes, bodas, confins, víveres, exéquias, primícias, férias, costas, os nomes dos naipes dos baralhos: copas, espadas, ouros e paus.
Entre outras, a língua inglesa também apresenta tais substantivos, e ouve-se às vezes a explicação de que isso acontece porque se referem a pares simétricos: Chamam-se trousersou pants (calças), porque têm duas pernas. Nem sempre, porém, essa explicação se sustenta; blusas e camisas têm duas mangas e nem por isso têm nomes plurais.
Não é possível afirmar exatamente quais desses termos são plurais de formação e quais eram usados no singular e depois tornaram-se plurais, visto que em textos antigos há referências a alguns deles na forma singular. Mas mesmo que os nomes sejam plurais de formação, com o passar do tempo tende-se a singularizá-los; afinal, o objeto é um só. Aos poucos as formas singularizadas são aceitas e dicionarizadas: a calça, a tesoura. E um dos sintomas dessa alteração é a discordância numérica: “Este é o óculos que eu quero; veja meu óculos”, atitude já bastante popular no nosso português.
A exemplo do plurale tantum, existe também o singulare tantum, que se refere a palavras usadas apenas no singular, como sucede com as palavras que expressam ciências e artes (arquitetura, pintura), os nomes dos minerais (ouro, prata), o nome de produtos animais ou vegetais (leite, manteiga), o nome das virtudes ou vícios (caridade, malvadez), o nome de substâncias inorgânicas (água, oxigênio), os nomes abstratos (brancura, nobreza), alguns coletivos (prole, plebe), etc. Esta noção, porém, na língua portuguesa, é bem mais polêmica. Enquanto em inglês os chamados massnouns são indiscutivelmente utilizados no singular e assim considerados gramaticalmente, substantivos abstratos em português são constantemente utilizados também no plural. Essas ocorrências constantes de flexão numérica dos substantivos abstratos são amplamente aceitas e, portanto, dificilmente condenadas por gramáticos. Veja-se o caso de “saudade”, frequentemente usada no plural “saudades”; ou “felicidades”, justificada como uma expansão semântica da palavra, significando “votos de felicidade”.
No caso da nossa língua portuguesa, como se vê, há uma tendência a aceitar-se bem as flexões de número de diversos substantivos abstratos por gramáticos, sendo os que não as aceitam considerados tradicionalistas. Ainda existem substantivos abstratos, porém, cujo uso no plural não é tão amplamente aceito: “ódio”, “preguiça” e “raiva” são exemplos disso.
Substantivos que não integram os grupos pluralia tantum ou singularia tantum apresentam tanto formas plurais quanto singulares, mas nem por isso escapam de gerar dúvidas quanto às suas flexões. Veremos alguns exemplos:
Fax – O dicionário Houaiss já registra o seu plural como “faxes”. É uma palavra derivada do inglês, numa redução de fac-símile, cujo plural se dá por fac-símiles. No entanto, como se trata de um meio de transmissão, seria correto dizer somente “enviei os documentos por fax”. Seguindo a mesma regra de ônix, tórax, fênix e dúplex, dada a ocorrência de serem terminados em “x”, tem-se: um fax, três fax e assim por diante.
-AU/-AL/-ÉU/-EL –Comparem-se os plurais de “varal – varais” e “nau – naus”. Substantivos terminados em – al formam o plural com a mudança de “-al” por “-ais”, enquanto que os terminados em – au recebem o acréscimo de “s”. Sabendo-se como são escritos não há dúvida. O problema aparece quando observamos apenas sua pronúncia semelhante e generalizamos a regra, como em: “Os degrais da escada estavam escorregadios”. A mesma questão se aplica aos substantivos terminados em – el e – éu: Coronéis, pastéis e pincéis, mas réus e céus. A similaridade da pronúncia pode levar a erros como: “Pegamos os chapéis e fomos receber os troféis”.
Substantivos terminados em –ÃO – Apesar de não haver uma regra específica a ser seguida nesses casos, é possível observar alguns padrões que auxiliam o uso. Em primeiro lugar é bom saber que a maioria das palavras terminadas em – ão formam o plural com – ões, e que esse grupo inclui todos os aumentativos: limões, corações, grandalhões. Além disso, todas as paroxítonas formam o plural com o acréscimo de “s”: bênçãos, órgãos; e o mesmo acontece com os monossílabos tônicos: chãos, mãos e vãos. Para finalizar, são poucas as palavras que mudam, no plural, a terminação de – ão para -ães: cães, mães, capitães.

Leave a comment

Your email address will not be published.


*


Carregando...