Neologismo

Beijo pouco, falo menos ainda.
Mas invento palavras
Que traduzem a ternura mais funda
E mais cotidiana.
Inventei, por exemplo, o verbo teadorar.
Intransitivo:
Teadoro, Teodora.
BANDEIRA, M., Meus poemas preferidos, São Paulo: Ediouro, 2002.

O título que dá nome a este poema dialoga com um fenômeno natural e constante da língua: o surgimento de novas palavras. No poema, o eu lírico faz um jogo com o título do poema, em cujos versos podemos reconstruir o sentido da palavra “Neologismo”, que flerta no poema com o verbo inventar: “invento palavras”. O eu lírico assume a criação de uma palavra para nomear um sentimento que tenta traduzir “a ternura mais funda e mais cotidiana”: o verbo teadorar. Do ponto de vista morfossintático, o que o autor faz é reunir verbo e objeto em uma única palavra o pronome te (objeto sintático) com o verbo adorar (verbo).
O poema brinca com alguns conceitos da Gramática Tradicional, como a noção de transitividade (o verbo que precisa de objetos-argumentos) para que seu sentido fique completo. Adorar, verbo transitivo, passa a intranvistivo, porque para esse novo verbo não há objeto; a mulher amada só pode ser a própria Teodora, palavra subentendida no radical e expressa no vocativo.
A palavra inventada por Bandeira é um neologismo lexical, construído por meio da organização de pequenas partes de palavras Nas escolas ainda se estuda sobre formação de palavras, que geralmente são divididas em dois grandes grupos: aquelas formadas por derivação (a partir do uso de prefixos, sufixos, desinências, radicais) e composição, aquelas que são formadas pelo agrupamento de duas ou mais palavras.
Mesmo quem nunca sentou num banco escolar é capaz de formar palavras novas por meio da intuição falante. Como meu filho que, aos quatro anos, me disse que eu deslembrei dele, uma vez que o peguei atrasada na escola. A filha de uma amiga disse que iria elisar tudo, ou seja, transformar tudo em algo de qualidade de Elis (uma moça de quem ela gostava). Há alguns anos atrás o famigerado “imexível” foi utilizado por Antônio Magri no lançamento do Plano Collor e virou piada nos jornais da época. O adjetivo imexível foi inventado graças ao prefixo i- (negação) e ao sufixo -vel (possibilidade), que nós encontramos, por exemplo, em imutável (que não pode ser mudado). Já ouvi quem pedisse para “desaumentar” o volume do aparelho de som – não bastava dizer abaixar, porque o que o falante queria era expressar a necessidade de desfazer uma ação. Mas a língua não é muito dada a pleonasmos. Se uma palavra já existe para nomear uma ação para a qual não é necessário expandir o sentido ou atrelar uma nova palavra, a tendência é que a palavra nova não seja abraçada pelos demais falantes.
Já a literatura é dada a deliciosos disparates neológicos: criar palavras que podem não cair no gosto popular ou serem incorporadas ao léxico, mas acabam por criar efeitos de sentido únicos, como o teadorar, de Bandeira. E como não lembrar do mestre de todos os neologismos e brincâncias literárias nas veredas da língua? Guimarães Rosa, que nos deu de presente neologismos que existem dentro do universo de suas obras, mas que funcionam com genialidade. Circuntristeza, uma tristeza que nos rodeia e circunda. Ou ainda a palavra que abre o livro Grande Sertão Veredas: “Nonada”, neologismo criado por Guimarães resultante da aglutinação de non (forma arcaica de não) com nada. É como dizer “não é nada, não há de ser nada, é tão pouco”. Muitas vezes algumas coisas não conseguem ser expressas nas línguas com as palavras que possuímos e aí vem a necessidade de (re)criar palavras. Guimarães, Bandeira, crianças e alguns de nós neologizamos, às vezes. Meus alunos usariam o neologismo “maravilinda”, corriqueiro entre adolescentes, para se referir a essa plasticidade da língua. E eu concordo.

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