O Adeus ao Paulinho.

“A morte de um velho amigo é uma catástrofe na memória. Todas nossas relações com o passado ficam alteradas”.
Nelson Rodrigues

Talvez você não tenha conhecido o Paulinho, menino peralta na escola. Sempre simpático, disposto a ajudar em qualquer tarefa ou travessura. Era bom de briga, defendia seus amigos, mesmo que para isso tivesse que levar umas bolachas.
Eu e Paulinho éramos amigos. Ele excelente nadador, atravessava o Rio Vermelho e o Iguaçu com a mesma facilidade. Eu, um cagão, água na cintura era o limite.
Com o final da adolescência, a juventude nos separou. Não lembro se ele prestou o serviço militar junto ao 5º. BE. Eu fui dispensado, oficialmente por excesso de contingente, embora até hoje tenha minhas desconfianças, acho que o boton do Che na jaqueta jeans teve influência.
Quando, ainda na década de 1980, fui buscar formação acadêmica em outra cidade, tinha notícias do Paulinho, quando nos encontrávamos nos bares da cidade, ou na Barbearia do Edson.
Paulinho cresceu, constituiu família, virou homem de bem, mas sempre manteve seu espírito alegre, gargalhada fácil, piadista memorável. O Paulinho virou empreendedor, cozinhava como ninguém, mas seu forte era o atendimento. Tratava seus clientes como pessoas da família. Começou com pequenas encomendas e sanduíches. Para agilizar montou uma gambiarra e fez da sua bicicleta, com vistoso toldo ,o primeiro e mais folclórico veículo de venda de lanches. Sem dúvida um marco no empreendedorismo, a primeira Bike Food que se têm notícias.
Paulinho sempre foi Guerreiro, da Bike Food, passou para um trailer e depois para um Food Truck.
Quem sabe agora você lembra dele. O Paulinho virou grife, era Paulo Lanches, o “Prensadão”.
Se você frequentou baladas e festas nas casas noturnas de nossa cidade, com certeza viu ou quem sabe saboreou o melhor lanche prensado do Vale do Iguaçu. Talvez você até lembre dele, vestido de branco, trabalhando e lhe servindo.
Mas o Paulinho guardava dentro de si uma história de batalha diária. Construiu ao longo de sua vida a personalização do melhor que o ser humano pode se transformar. Amigo fiel, coração gigante e sempre acreditando que os seres que lhe cercavam pudessem ser iguais e felizes. Pagou um preço alto.
Adorava pescar. Nunca deixou um amigo sem alguns lambaris (sua especialidade). O Edson Checozzi (O Barbeiro) nosso amigo em comum, garante que o Paulinho, com objetivo de agradar, era capaz de “desossar” um lambari, servindo apenas o filé do peixe.
Mas o Paulinho se foi. Morreu antes mesmo de completar 50 anos de idade. E como disse Nelson Rodrigues,as nossas relações com o passado ficam alteradas. Retornam a memória as alegrias e tristezas da infância e adolescência. Nos faz repensar a vida e a necessidade premente de buscar a felicidade .
A morte do Paulinho foi um soco no estômago. Assim como de outros amigos que se foram sem avisar, e de alguns que quase foram e também nos chocaram. Edgar Scandurra e Nasi definiram em uma canção esse sentimento:
Do alto da montanha
Ou em um cavalo em verde vale
E tendo o poder de levitar
É como em um comercial de cigarros
Em que a verdade se esquece com uns tragos
Sonho difícil de acordar
É quando teus amigos te surpreendem
Deixando a vida de repente
E não se quer acreditar
Mas essa vida é passageira
Chorar eu sei que é besteira
Mas, meu amigo, não dá prá segurar.
Quem sabe, você amigo leitor ou leitora já tenha passado por essa experiência triste e dolorida e saberá que não existem palavras pra definir ou mensurar o momento. Resta apenas reunir forças e continuar a batalha.
Luis Antônio Solda, talentoso, certa vez, escreveu para outro Paulo, o Leminski, mas que por certo também serve para nosso Paulinho, ou para os tantos outros amigos que se foram sem avisar:
Poema Para Paulo Leminski
Vai
meu amigo
desta vez
não vou contigo

a morte
é um vício
muito antigo
só que nunca
aconteceu
comigo
pode ir
que eu não ligo
eu fico por aqui
separando
tijolo do trigo.

Um Fraternal abraço a todos.

 

Leave a comment

Your email address will not be published.


*


Carregando...