O avião é uma ave grande?

Etimologicamente sim. É um termo importado do francês avion, surgido antes que os aviões voassem. Juntou-se o substantivo latino avis, que significa “ave”, ao sufixo –on. Como em tantos outros termos, o sufixo “-ão” indica uma grande proporção ou intensidade.

Vem bombando na internet o vídeo de uma americana, aprendiz da língua portuguesa, queixando-se das flexões, em gênero e número e a derivação em grau, dos adjetivos. Não bastando ter que aprender que existem “bonito”, “bonita”, “bonitos” e “bonitas”, ainda é preciso conhecer “bonitinho”, “bonitinha”, bonitão” e “bonitona”, estes dois últimos apresentando a dificuldade adicional de não seguirem uma lógica clara. É melhor ninguém avisá-la de que ela ainda poderá encontrar “bonitérrimo”, ou ouvir o mineiro dizendo “bonitim”, ou ainda defrontar-se com alguma “boniteza”. Felizmente para a riqueza da nossa língua, mas infelizmente para os estrangeiros que se aventuram na sua aprendizagem, as variações vão ainda muito além disso.

Formamos grande parte das palavras da nossa língua portuguesa com sufixos, essas partículas que modificam os radicais. Podem ser acrescentados: antes do radical, como a partícula “des-“ em “desleal”; após o radical, como o elemento “-dade” em “lealdade”; ou ainda nos dois espaços ao mesmo tempo, como na palavra “deslealdade”. Os sufixos, acrescidos ao final das palavras, formam, no vídeo mencionado, a maior preocupação da aprendiz desanimada com a dificuldade em aprender a língua portuguesa. Com eles alteramos sobremaneira as formas de adjetivos e substantivos, formando o plural, o diminutivo, o aumentativo, determinando a classe gramatical das palavras, e transmitindo informações de pessoa, número e gênero.

Engana-se quem pensa que os sufixos que formam o grau aumentativo dão apenas ideia de tamanho. Um amigão não é necessariamente um amigo grande, mas um amigo querido. Ou então que podemos restringir (nem mesmo para falar de uma maioria) a formação do grau superlativo ao acréscimo dos sufixos “-ão” e “-ona”. Existem inúmeras outras maneiras de, adicionando sufixos variados, provocar um aumento ou exagero no sentido do termo. Uma boca grande pode até ser um “bocão”, mas é mais comumente uma “bocarra”; o fogo pode transformar-se num “fogaréu”, e o muro numa “muralha”. Perceberam, além disso, a mudança de gênero, de feminino para masculino (A boca, mas O bocão), ou vice-versa (O muro, mas A muralha), quando mudamos o termo para o grau aumentativo?

Essa produtividade com os sufixos é tão grande, que os próprios sufixos ganham, com o passar do tempo, novos sentidos, o que leva à formação de novas palavras. Vejam as palavras “portão”, “cartão” e “calção”, por exemplo; Originalmente, eram aumentativas, e hoje apresentam acepção considerada de grau normal. Outro caso muito curioso do uso dos aumentativos é que eles nem sempre mantêm o significado referente ao termo que lhe deu origem: apesar de “macacão” poder significar um macaco grande, passou a ser usado também para designar uma peça de roupa; o “amarelão” virou sinônimo da doença, o “verdão” é o time do Palmeiras, um “paredão” indica uma situação difícil, e o “corujão” é o filme da madrugada.

Os sentidos que damos às palavras no aumentativo são, muitas vezes, mais afetivos que lógicos. Ele exprime o valor emocional de quem fala. “Bonitérrimo” não é apenas “muito bonito”; isso seria “bonitão”, ou até mesmo “bonitinho”. “Bonitérrimo” extrapola um limite, sugere algo muito superior. “Gentalha” indica um sentimento de desprezo. Ao juntarmos um aumentativo a um diminutivo, reduzimos o efeito pejorativo, oferecendo uma feição mais carinhosa: “comilãozinho”. Em “garotão” enfatizamos a juventude, e em “quarentão” a idade.

Podemos usar o aumentativo quando queremos rebaixar alguém, ou alguma coisa, mesmo que de forma sutil: bobalhão, paspalhão, valentão, palavrão. Aliás, o sufixo “-ão” pode ser usado tanto para valorações positivas, como em “Mengão”, quanto para negativas, como em “pobretão”. E num mesmo termo, dois ou mais tipos de aumentativos distanciam-se um do outro no sentido: “mulherão” ressalta qualidades físicas de uma mulher consideradas positivas, enquanto que “mulherona” é usado pejorativamente, enfatizando que uma mulher comporta-se como uma criança. Que diferentes sentidos identificamos em “cabelão”, “cabeleira” e “cabeludo”?

O uso do aumentativo, portanto, tem função pragmática, não se restringindo ao significado das palavras. De acordo com nossas intenções, utilizamo-lo de diversas formas, podendo expressar, entre outras coisas, intimidade, desprezo e importância. A aprendiz americana que me perdoe, mas não vejo esse potencial de expressividade como dificuldade, mas como uma grande riqueza da nossa língua portuguesa.

 

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