O Brasil está doente

Durante o mês de março passei cerca de 15 dias em São Paulo, e, ao longo desses dias fui ouvindo coisas que atestam que parcela de nossa população sofre de um mal, que eu achava estar adormecido, mas ao contrário, continua muito vivo. Seu nome: Fascismo.
Cabe salientar que ao retornar, primeiro para Curitiba e depois para União da Vitória, o fascismo continuou a permear meus dias, nas ruas e principalmente, nas redes sociais.
Ainda em São Paulo, tomei um Uber para ir a uma loja de discos na Rua Augusta. O motorista me contou que era policial civil e acabamos conversando sobre política, quando ele mencionou que o presidente do Movimento Nacional dos Sem Teto, Guilherme Boulos, era um baderneiro e agitador e que merecia levar uma surra. Antes de completar seu comentário, ele hesitou, parecendo querer dizer que Boulos merecia mais que uma surra, mas diante de minha perplexidade, atenuou o que iria dizer.
Dois dias após o brutal e covarde assassinato da ativista social e vereadora do PSOL do Rio de Janeiro, Marielle Franco, fui com minha filha Mayara, a uma pizzaria na Vila Madalena. Como as mesas são próximas, não pude deixar de ouvir os comentários de dois casais, na mesa ao nosso lado. O mais eloquente dos homens, aparentando ser de minha geração, produziu um comentário misógino e de clara conotação fascistóide, dizendo que Marielle deveria pertencer ao crime organizado e por isso foi executada. Arrematou dizendo ainda que mortes como a de Marielle acontecem todo dia, sem entretanto ter a mesma repercussão. Comentários semelhantes vi estampados nas redes sociais. Se esquecem os autores de tais publicações que Marielle era uma ativista social e emérita defensora não apenas das mulheres, mas também das minorias raciais, da comunidade LGBT e de toda sorte de excluídos. Comentários dessa natureza são de um reducionismo rasteiro, que para dizer o mínimo, carentes de informação e preconceituosos, como aquele feito pela Desembargadora do Rio de Janeiro, Marília Castro Neves, que dias depois voltou a proferir impropérios em outro comentário preconceituoso perpetrado contra uma professora portadora de síndrome de down.
No táxi que tomei para o aeroporto de Congonhas, o rádio estava ligado na Band, no programa do Datena que entrevistava o prefeito João Dória, e este comentava que deixaria a prefeitura de São Paulo para concorrer ao governo do estado. O motorista então comentou que Dória não teria o seu voto. Perguntei então se em seu entendimento Dória não fazia um bom governo. Ele respondeu que ele não fez absolutamente nada nos quase 15 meses de governo e que só sabia fazer marketing. Perguntei então do ex-prefeito, Fernando Haddad, e, ele respondeu que também fora péssimo. Até aí entendi que o motorista achava ambos maus administradores. Fiquei estupefato, quando ele disse que o melhor político do país era Michel Temer, o único, que mesmo com denúncias contundentes conseguia se manter no poder, driblando com maestria tribunais, como o TSE e a Câmara de deputados, atribuindo efetivo mérito a quem mesmo culpado, segundo ele, consegue permanecer incólume. Disse ainda que havia escutado no dia anterior, que Temer concorreria à reeleição, que teria o seu voto e que venceria o pleito. Fiquei pasmo, aturdido, pois, jamais havia ouvido um elogio escancarado à desonestidade, tampouco, havia me deparado com um eleitor desse golpista, e, emérito expoente do mais execrável fisiologismo.
Ao chegar a Curitiba, contei essas passagens para Nina Rosa, minha outra filha e disse que minha geração estava doente e ouvi com tristeza ela dizer que essa espécie de atitude e comentário, não era prerrogativa de minha geração, uma vez que pessoas de sua idade também propalam iguais absurdos. Como por exemplo, defender a volta da ditadura militar.
Já em União da Vitória me deparo com um whats app, no qual o ator Alexandre Frota, apregoa a volta da ditadura militar, ofende os membros do STF, em clara apologia a Bolsonaro e a tudo ao que há de mais conservador e retrógrado em nossa sociedade.
Domingo passado, já com o ex-presidente Lula preso, recebi um vídeo em que algumas pessoas cantam o Hino Nacional, enquanto a bandeira brasileira é hasteada. Ao terminar o hino surge a frase: Nossa bandeira jamais será vermelha. Evidentemente que ela jamais será vermelha, pois com o país governado pelo PT, PC do B, PSOL ou outro partido de esquerda, ela continuará a ser verde e amarela e envergar o slogan positivista ordem e progresso. O que eu estranho é que se louvem políticos e sistemas de governo que apregoam, claro que não direta e ostensivamente, uma sociedade cada vez mais desigual, com enormes diferenças sociais, com o rico cada vez mais rico e o pobre cada vez mais miserável.
Até quando muitos continuarão cegos, enxergando apenas o que lhes convém? Até quando muitos continuarão distorcendo a realidade, para a qualquer preço, preservar seu status quo?

 

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