O carona

Não há aquele que pelo menos uma vez, não tenha
sido carona durante a vida. Nem sempre se é carona por necessidade, vezes
por aventura, por pressa, por ingenuidade. Vezes há que se assume a
condição de carona por ansiedade para alcançar o objetivo em tempo menor.
Conheci alguém que vou clamar de José para contar a desdita, pois não estou
autorizado a tornar pública a história que me contou.Deixando-o no anonimato
a história pode ser pública porque deve ter ocorrido inúmeras vezes com
muitos.

Os fatos adiante relatados ocorreram nos idos da
década de 1980. Entre um e outro copo de cerveja, num entardecer de verão,
postados em mesa de bar, junto com demais companheiros, assuntos
aleatórios eram ventilados e as aventuras narradas eram brindadas com
sonoras gargalhadas.

E a tarde fluía vagarosamente, descompromissados se
deixavam levar preguiçosamente embalados pelos eflúvios etílicos, gozando as
aventuras narradas, menos José.

Questionado porque não estava se divertindo, José
contou as lembranças que lhe açoitavam a mente e que não lhe eram
agradáveis, para os demais, quando narradas, foi a maior gozação.

Contou José que numa das idas à Faculdade que
cursava em Minas Gerais, mais precisamente em Pouso Alegre, recebeu
convite para retornar de carona em um Galaxi, veículo quase novo e que
pertencia a outro aluno do curso, que frequentavam. Expôs o amigo de José as
possibilidades, enumerando as muitas vantagens e as poucas condições para
a carona.

O dia era sábado e as provas na Faculdade os três
(Jorge, o dono do veículo Galaxie e o amigo) já haviam concluído, nada mais a
fazer. Eram aproximadas 10:00 horas; o primeiro ônibus sairia de Pouso Alegre
para São Paulo apenas às 13:00 horas com previsão de chegada às 17:00 h.
Nada a fazer até então. Argumentando afirmava o amigo:
– “Ora, se conseguirmos a carona iremos almoçar em Atibaia, lanche rápido e,
quando o ônibus de linha estiver saindo de Pouso Alegre, já estaremos em São
Paulo e de lá até Curitiba são pouco mais de 200 km, chegaremos ainda com
tempo de embarcar em ônibus e certamente antes da meia noite estaremos em
casa”.

A perspectiva era muito boa. O único senão colocado é
que os caronas pagariam o combustível a ser consumido pelo Galaxi, José e o
amigo. A proposta era deveras tentadora, economicamente vantajosa e rápida.
Haveria ainda como despesas a serem feitas se não aceitasse a carona, o
almoço em Pouso Alegre; a passagem de ônibus até São Paulo; a passagem
de São Paulo a Curitiba; a janta em Curitiba; a passagem de Curitiba até União
da Vitória, estimada o término da viajem para às 06:00 h do dia seguinte.

Aqueles dias eram de verão e o calor insuportável.
Acresça-se às viagens em ônibus, lotados e sem ar condicionado, verdadeiro
martírio.

Fator decisivo para a tomada de decisão de José foi o
fato de que o Galaxie, um dos poucos veículos provido de condicionador de ar,
extremamente amplo, flutuava nas estradas, sem sacolejos, viajar nele era
privilégio de poucos.

Decidido a gozar todas aquelas vantagens,
imaginando-se preguiçosamente estendido no banco traseiro, com o ar
condicionado refrescando-lhe o corpo, viajando à velocidade deveras superior
aos ônibus, imediatamente aceitou José a proposição, foi o início da saga do
caroneiro.

A demora ao início da viagem de retorno era tão
somente o tempo dos viajantes se apossarem das bagagens, embarcarem no
veículo e gozar o qualitativo do transporte e a brevidade da viagem. Era bom
demais.

O roteiro traçado da viagem passava por uma rápida
parada em Sapucaia, cidade à margem da Rodovia Fernão Dias que liga São
Paulo, Pouso Alegre, Belo Horizonte, onde ônibus rotineiros faziam paradas
para os viajantes lancharem em local específico. Seguia a Atibaia, depois São
Paulo. De lá pela Rodovia Régis Bitencourt para Registro, finalmente Curitiba.
Poucos quilômetros rodados na Rodovia Fernão Dias,
trafegando confortavelmente no veículo Galaxie, José teve a primeira surpresa:
não parariam em Sapucaia e fariam o lanche em Atibaia, onde o proprietário do
veículo aproveitando a viagem iria até o aeroporto, num dos hangares onde
tinha um avião que havia sido sinistrado e estava sendo consertado. Deveria
ser coisa rápida, conversaria com o encarregado do conserto para verificar se
nada estava faltando e depois seguiriam a viagem.

A sorte não estava com José. O mecânico responsável
pelo conserto da aeronave não se encontrava em Atibaia, estava em Santos
promovendo outros consertos em aviões, porque muito requisitado para tais
operações. Assim, premido pela insuperável necessidade de tratar com o
mecânico, resolveu o então “anfitrião” dar uma esticadinha até Santos para
depois seguirem até Registro e finalmente Curitiba. Não se discutia a questão,
carona concorda, somente reza.

Se a coisa estava ficando difícil, pior ficaria ainda.
Como a viagem seria via Santos, apenas um lanche
naquele momento seria insuficiente, não alimentariam condizentemente. Por
isso resolveu o “anfitrião” que iriam almoçar em Churrascaria conhecida às
margens da Rodovia Anhanguera no caminho a Santos, ainda na periferia de
São Paulo.

Assim Atibaia ficou para trás e os anseios do carona

também. Mas a coisa não parou por ai …

Alcançada a Churrascaria almejada, ainda estava em
vantagem o carona dos outros alunos que iriam embarcar no ônibus em Pouso
Alegre, eram ultrapassadas 13:00 horas. Pouco importava naquele momento
se chegasse a Curitiba no mesmo horário que os outros alunos que ainda iriam
embarcar em Pouso Alegre, considerava José, sopesando as vantagens que
teria e o conforto de viajar no Galaxie com ar condicionado.

Entretanto, as desvantagens ainda não haviam se

apresentado por inteiras.

Muito bem servidos na “chique” Churrascaria, chegou o
momento de pagar a conta. Por argumento do amigo de José, “o dono do
veículo não paga a conta, nós pagaremos”. Quando José viu a conta que
dividiria com o amigo, teve três tipos de calafrios, quase desmaiou. Com a
parcela que lhe tocava poderia pagar o bilhete de passagem de São Paulo a
União da Vitória, sem considerar os 10% do Garçom. Mas carona não reclama,
Aguenta as pancadas com sorriso no rosto, segue em frente…

Segue a viagem. A descida de São Paulo a Santos
induvidosamente é muito bonita, viajando confortavelmente sozinho no banco
traseiro do Galaxie e com ar condicionado, José quase se esqueceu do preço
do almoço. Lembrou mais adiante.

Conversavam animadamente o “anfitrião” e o amigo de
José os mais variados assuntos. José desfrutando o conforto e o ar
condicionado. Vez se lembrava dos viajantes no ônibus, apertados, calor
insuportável, se desculpava pelos gastos, afinal o luxo custa caro. Carona acha
desculpa para tudo.

Durante a viagem, a meio caminho de São Paulo a
Santos, o ponteiro de combustível do veículo chegou na reserva. Era o
momento de abastecer. Soube, então, José que o veículo Galaxie possuía um
tanque de combustível que comportava 100 litros e que o consumo era de 1
litro para cada 3 quilômetros rodados, em especial com o condicionador de ar
ligado. Naquele momento José não mais sentia calor, era preciso economizar,
notadamente porque eram os caronas que pagariam o combustível.

No primeiro Posto de Combustível encontrado,
indiferente qual a bandeira do Posto, porquanto o preço do combustível era
tabelado em todo o território nacional, abasteceram e, para o sofrimento do
carona, admitiu o tanque do Galaxie pouco mais de 90 litros, uma fortuna,
esvaia-se qual areia entre os dedos, o pouco do dinheiro que o carona possuía.
Lá se ia o “leite das crianças”. Nesse ritmo jamais o carona chegaria a casa. E
ainda não haviam conseguido chegar a Santos, cada vez mais distante
Registro, Curitiba, União da Vitória… Triste a sina do carona!

Por fim Santos! Eram aproximadas 16:00 horas quando
chegaram em um bar a beira-mar, conhecido do “anfitrião”. Assentaram-se à
mesa posta na calçada e, após sorver um belo caneco de chope bem gelado, o
“anfitrião” lhes disse: “Vocês aguardem aqui que vou em busca do mecânico e
na volta seguiremos viagem. É coisa rápida.” Carona não discute, se cala.

Bem postados o José e o amigo, apreciando a
movimentação a beira-mar, apreciando canecos de chope, servindo-se vez por
outra de petiscos de frutos do mar, viram fluir o tempo. O horário era de verão,
o sol proporcionando espetáculo à parte, se escondia no horizonte. Para
desespero do carona que via o amigo sorver continuamente canecos de chope,
petiscos após petiscos, a conta crescendo assustadoramente e o retorno do
“anfitrião” não acontecer.

E agora, como seria para pagar a conta? Haveria o
amigo de praticar o mesmo comportamento nas despesas anteriores? Seria
meio a meio? E o “anfitrião” não retornava, ultrapassadas as 19:00 horas.
A essa altura dos acontecimentos já os colegas de
Faculdade que viajavam de ônibus estavam em São Paulo, eventualmente
jantando em local próximo à Rodoviária, com os bilhetes comprados para o
ônibus da empresa Reunidas que seguiria para Maravilha, SC, com escala em
União da Vitória. E o inteligente, sortudo carona estava ainda em Santos, a
beira-mar, vendo o amigo sorver chope bem gelado, comer petiscos de
camarão e outras iguarias marinhas. Ah, se arrependimento matasse, naquele
momento José morreria.

Finalmente retornou o “anfitrião”. Após a ingestão de
caneca de chope gelado, comer sobras dos petiços existentes, foi dada a
ordem de levantamento de acampamento: “viajemos que o tempo se vai” –
afirma o “anfitrião”, comandante em chefe. O rosto do carona se ilumina, baila
um sorriso em seus lábios, finalmente retomada a viagem. Ser carona é mais
do que ser educado, mais do que ser insensível, é ser politicamente correto,
jamais deixar transparecer qualquer sinal de contrariedade, de insatisfação.
José prometia a si mesmo jamais ser carona outra vez.

Retomada a viagem, ingressaram na BR-101 em
direção ao Balneário Peruíbe, destino próximo Registro, ponto mediano entre
São Paulo e Curitiba. Lá certamente chegariam antes do ônibus da Reunidas
que viajavam os demais acadêmicos com destino à União da Vitória. Pelo
menos isso, refletiu José, ainda chegaremos antes no destino final. Ledo
engano.

Ultrapassada cidade de São Vicente, o belo Balneário
Peruíbe, viagem sem surpresas, alcançaram Registro. Inquirido o
representante da empresa Reunidas, informou que o ônibus com destino a
Maravilha/União da Vitória ainda não havia passado. Pelo menos isso, pensou
José, se ufanou por estar à dianteira.

Tomado lanche rápido em razão do adiantado da hora,
era tempo de partir. Antes, porém, abastecer o Galaxie, mais próximos 90
litros, “como bebe a criança”. E o dinheiro acabando, o carona acabrunhado,
mãos postas implorando aos céus que chegassem logo em Curitiba, acabasse
o calvário.

Reiniciada a viagem, trafegando em velocidade
moderada em razão do intenso tráfego, Curitiba parecia ainda mais distante.
Finalmente se aproximam da divisa de São Paulo e Paraná. O “anfitrião”

conversa animadamente e dirige o veículo para o posto de combustível
existente ainda em solo paulista, Posto Divisa. Explica o “anfitrião” que aquele
posto é dele e necessitava parar para verificar se tudo estava em ordem, pois
não confiava no Gerente atual. O carona se desespera, urge chegar em
Curitiba para tomar o último ônibus que sairá para União da Vitória. Mas essa
necessidade não pertence ao “anfitrião” e a conversa com o Gerente do Posto
é longa, cheia de se nãos. Finalmente reinicia a viagem, agora mais perto do
final, pouco ou quase nada poderia interferir no seguimento.

A chegada na Rodoviária de Curitiba foi algo que se
poderia qualificar como exasperante. O enorme veículo Galaxie, o número de
outros veículos tentando estacionar, fim de ano todos saindo e chegando, e o
horário apertado. Estaria ainda o ônibus que partiria para União na plataforma
de embarque? Haveria ainda a possibilidade de embarcar? Essas e muitas
outras questões assaltavam o José, carona exasperado. Sabia-se que o último
horário era 20:45 horas, já ultrapassada por mais de 20 minutos, mas quem
sabe se não houve atraso? Poderia ser, mas não dessa vez.

Desembarcado do Galaxie, José se arremeteu
loucamente ao guichê da empresa para adquirir bilhete de passagem. Essa
distava pouco mais de 100 metros. Rivalizou José com o recordista de
velocidade dos 100 m. Esforço perdido. O ônibus havia partido lotado a poucos
minutos, impossível embarcar. O desânimo açambarcou-o. Nada pior do que
carona desanimado.

Retornando aos companheiros que ainda estavam
embarcados no Galaxie, Jorge expôs os fatos. Logo o amigo animou-o
ofertando carona até São Mateus do Sul:
“Não se amofine José, disse o amigo, confortavelmente sentado no Galaxie.
Posso levá-lo até o Posto da Polícia Rodoviária em São Mateus e de lá a
polícia poderá auxiliá-lo a conseguir uma carona até União, talvez ainda possa
embarcar no ônibus que vem vindo de São Paulo. Estou com o carro no
estacionamento e logo partiremos.”

Era uma possibilidade, melhor que dormir em algum
banco da Rodoviária a espera de ônibus para União. Ser carona é ser sofredor,
fazer o quê?

Assim dito, assim feito. Antes, porém, depois da
despedida do “anfitrião”, já embarcados no “possante” Corcel 1 do amigo
(possante porque no local onde parava o carro, ficava uma enorme posse de
óleo), foram primeiro “dar umas voltas” na cidade, pois segundo o dito popular,
“ninguém é de ferro”. E o carona do que é feito, geleia talvez.

O Corcelzinho do amigo, carrinho valente, enfrentou a
estrada para São Mateus galhardamente. Venceu os mais diversos obstáculos
encontrados na BR-476. Verdade que os Santos invocados pelo carona em
suas rezas auxiliaram, muitos despendendo esforços para ultrapassarem
subidas, ou para segurarem na descida, afinal chegaram.

A chegada na guarita da Polícia Rodoviária em São
Mateus ocorreu aproximadamente às 5:00 horas, a madrugada ainda estava
escura, não havia luar. Após o desembarque, despediu-se o amigo desejando
sorte e se foi com o Corcelzinho deixando nuvem de fumaça azul.

O Policial Rodoviário de plantão recebeu José muito
bem, simpático explicou muitos dos procedimentos dos policiais, inclusive o
uso do aparelho de radar. Disse o guarda que José não se preocupasse
porque o ônibus que deveria estar viajando, ainda não havia passado e,
quando isso fosse acontecer, ele o faria parar e então poderia embarcar. Dito e
feito: passados alguns minutos, ouviu-se o ronco do motor que seria do ônibus
esperado. E era. O prestimoso guarda postou-se ao meio da pista e com a mão
espalmada, levantada a cima da cabeça, determinou que o veículo
estacionasse. O motorista do ônibus estacionou no acostamento como
determinado, abriu a janela do veículo e ouviu a explicação do guarda.
Respondeu: “Ele pode embarcar, mas tem que pagar a passagem inteira, de
São Paulo até União, porque o fiscal não vai entender.”

José, o carona, de pronto calculou tudo o que já havia
gasto e concluiu que seria um mau negócio, negócio que somente “carona” era
capaz de realizar. Somado a isso, pouco, ou quase nada, restava de dinheiro
da infeliz aventura vivida. José desalentado olhando ao dedicado guarda
rodoviário depois da resposta do motorista, sinalizou que não iria pagar aquele
montante, fato que ensejou a liberação do ônibus para continuar a viagem.
O guarda rodoviário percebendo o imenso desalento de
José, asseverou que outro meio haveriam de conseguir para que José pudesse
seguir viagem até o destino. Não se passou muito tempo, outro ronco de motor
quebrou o silêncio da madrugada. Era um caminhão de carga que prontamente
o motorista atendeu aos sinais do guarda e parou no acostamento. Viajavam
no caminhão o motorista e o ajudante. O guarda solicitou que em razão dos
fatos, concedesse o motorista do caminhão carona a José. Sem titubear esse
se prontificou pode José, o caroneiro, seguir viagem.

Durante o percurso o caminhoneiro esclareceu a José
que a viagem dele era além de União da Vitória, seguiria para Palmas. Em
razão disso teria José de desembarcar no Posto Mallon, pois a estrada não
passa pela cidade. José reconhecidamente agradeceu e afirmou ao gentil
motorista que se estivesse no Posto Mallon, estaria em casa.

A morosidade do caminhão que estava transportando
carga, era até irritante. Consultando o relógio José, verificou que chegou no
Posto Mallon às 8:00 horas, cerca de 2:00 horas atrasado em relação ao
ônibus.

Em casa, tomando o café da manhã com a família,
José revisou a aventura, somou os prós e os contra, concluiu que a viagem de
carona foi um terrível desastre. A impossibilidade de argumentar, a ausência de
poder de decisão, de opinar, de reclamar, de expressar os sentimentos, são
fatores que violentam com a personalidade da pessoa. Some-se a isso os
gastos que fizeram a diferença e falta na sequencia. Mas a vida é aprendizado:
CARONA nunca mais.

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