“O desejo é sua interpretação”

No seminário 7 Lacan afirma que a psicanálise é uma ética. Não seria ela uma lógica? E mais, uma lógica na qual a falha da lógica seja sua matéria? Não é impensável que seja possível partir de alguns pontos que convergiriam para isso. São inúmeras as enunciações pelas quais tanto Freud como Lacan procuram formalizar o inconsciente. “O desejo é sua interpretação” por exemplo, pode abrir uma ampla discussão acerca de seu alcance. Que nisso, o que realce seja justamente a falha, o erro, é o que indica ser matéria exclusiva da análise. Acaso isso quer dizer que o desejo é a interpretação do analista? De modo algum. A meu ver, é claro, a exemplo dos sonhos de angústia, que isto se explica por intermédio de outra fórmula, segundo a qual, o desejo do homem é o desejo do Outro. Que o sonho seja, desde Freud, a realização de um desejo, isto soa bem, é algo facilmente verificável, basta sonhar, mas que esta fórmula possa ser generalizada ao ponto de todo sonho ser uma realização de desejo, parece esbarrar no fato de haver sonhos de angústia, sonhos em que traumas ressurgem, eventos dolorosos se repetem, somos traídos por quem amamos, etc. Ora, apesar disso, nenhum outro tipo de sonho confirma melhor a tese de realização de desejo do que esses, justamente porque o desejo é o desejo do Outro. A marca do inconsciente se mostra precisamente na interpretação que ele faz, do desejo do Outro. Assim, o inconsciente interpreta, revelando que a interpretação do relato de um sonho é sempre secundária. No processo primário o desejo é sua interpretação. Ora, por isso mesmo o inconsciente é ético, ele trabalha com esse excesso de gozo, suposto ao Outro. Não é diferente na fantasia: é o Outro que goza, seja na posição de provocar a angústia no sujeito, seja como objeto erótico, simbolizado pelo corpo. Em verdade, pouco importa, uma vez que esta distinção só parece ser efetiva a nível imaginário. Por isso, a imagem do corpo, então, se mostra como unidade, sede do narcisismo. Mas não se goza de uma unidade, primeiro porque tem nome, depois porque tem partes, por fim por ser não toda. É este impasse na formalização que denuncia, se houver lógica exclusiva desse discurso, que o real não corresponde, de maneira alguma, a mimese platônica. De nenhuma forma é factível uma correspondência entre um mundo ideal e a realidade, um ajuste de inconscientes coletivo e individual, entre a natureza e a matemática, pois isto seria simplesmente rebaixar o real ao simbólico, e assim sendo, ao sentido, e sendo assim, ao imaginário. E isto tem, para deixar claro, implicações políticas objetivas. Se o real pode ser traduzido em termos simbólicos, sem equívocos, e portanto, correspondendo ao que se concebe a título de leis da natureza, então resta nos resignarmos a elas ao modo como são formuladas politicamente. Agora, se ao formularmos estas leis já interpretarmos a natureza, então há desejos que implicam profundamente no quadro político que delas decorrem. Isto indica claramente que, traduzir o real, eliminando os impasses (que não são do real, mas do simbólico) só poderá levar a níveis de identidade naturalizados, resultando numa correspondência imaginária com um real suposto, e que por fim, ao escamotear o real encobrindo as falhas de formalização, só se poderá reencontrá-las, novamente, no outro, grupo seleto, causa da desgraça.

 

Psicólogo clínico, especialista em Teoria Psicanalítica e em Neuropsicologia. Atende em Caçador e União da Vitória. giuliano.metelski@gmail.com – WhatsApp: (49) 99825-4100 / (42) 99967-1557.

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