O engodo do astuto

O ponto de alienação fundamental do sujeito, na interpretação do desejo do Outro, é assim chamada com precisão, pois entrelaça, nesta suposição, a fantasia de satisfazer àquilo que se teria querido dele (sujeito). Isto ocorre no início da infância e tem valor positivo no registro simbólico, sem o qual, na verdade, o autismo melhor o descreveria. Mas este lugar, se pudéssemos apresentá-lo em termos topológicos, seria representado como um toro enlaçado a outro, justamente onde o furo de um, gera o toro do Outro. Portanto a borda, local onde não é possível designar limite externo ou interno, fornece uma imagem desta operação. Ela não marca, somente, na infância, a passagem do desejo do Outro à sua interpretação, como também inaugura a relação do sujeito como desejante do desejo do Outro. As implicações eróticas disto são evidentes, pois o narcisismo mais miticamente radical necessita de um objeto, o eu, como suposto desejar, para alcançar seu alvo pulsional. Entretanto, o jogo erótico não cessa no corpo, e o corpo não cessa no biológico. A estrutura de linguagem sexualiza-o justamente por intermédio do desejo, tornando-o objeto, e portanto, identificando ao corpo. Mas não é difícil perceber que este corpo é incapaz de compreender a dialética do desejo, especialmente se, tanto o desejo, como o gozo, não estão dentro dele mas fora, no Outro que o causa. Assim, alguns objetos ganham relevância na erótica, dos quais dois são mais evidentes: o olhar e a voz. Não são significantes, mas objetos, precisamente porque é por meio deles que o significante perpassa as zonas erógenas. Uma vez que o conteúdo de um olhar, por exemplo, ou da voz, mobiliza a economia erótica através do par que constitui a fantasia (sujeito e objeto) de modo exatamente análogo ao da alienação (para além de seu valor intersubjetivo) e portanto, independentemente da fantasia singular, tratando-se, portanto, de estrutura, e como tal, de repetição.
Que isto tenha, na análise, primeiro sido isolado sob o nome de transferência, e que com ela seja manejada a direção da cura, não impede, infelizmente, que o conhecimento empírico da dependência do desejo, pela via da exploração do imaginário, manipulado às massas, leve ao fascínio, e ao efeito do sujeito comportar-se exatamente como interpreta que deveria.

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