O Exame

Dias passados, assoberbado de questões mal resolvidas, sentindo desconhecidos sintomas clínicos, fui levado a consultar ilustre cardiologista renomado da cidade.
Semidesnudo, ouvidas as palpitações do já antigo coração, contadas as batidas, medida a pressão arterial, realizado eletrocardiograma, após diagnóstico e internação hospitalar fui remetido às plagas distantes para realização de exames mais acurados.
Aí se aprofundou o drama. . . Crescem as dúvidas, as incertezas, as angustias do vir a ser…
No portal do nosocômio do destino, quando recebido na portaria munido do encaminhamento remetido da origem, perdida a pessoalidade e identificado com pulseira numerada, transparente aos olhos dos quantos labutam naquela área, já não mais era eu, apenas um, representado por número.
E assim foi, assoberbou-se o drama. . .
Ultrapassado o hall, a recepção do nosocômio, recebido nos aposentos, me foi destinada em troca das bem cuidadas vestimentas que portava, algo parecido com avental, muito curto e que é vestido de trás para frente, de forma que a abertura da veste fica posicionada atrás. Vexatório.
. . . e era tudo o que poderia vestir.
No aposento a que fora destinado, amplo, bem iluminado, arejado, estavam dispostos cinco leitos, cada qual numerado com o número do andar, mais letra de A a E. Coube-me o leito 7C, minha sina estava traçada, adeus personalidade.
Horas depois, agendado o exame de cateterismo que é realizado introduzindo-se sonda através de artéria femoral que alcança o sistema vascular do coração, uma das maneiras, fui colocado em maca hospitalar vestido com o avental invertido e coberto por lençol impecavelmente branco. O frio do ar condicionado era singular, inesquecível.
…e lá fomos nós, eu deitado na maca e o piloto da maca, quiçás enfermeiro, assobiando, cantarolando, cumprimentando passantes, insensível com meu destino, tal qual segue o gado tangido ao matadouro.
A paisagem que observava era vazia (o teto branco, vezes lâmpadas inexpressivas, vez por outra um crucifixo na parede, era tudo o que enxergava). O piloto de maca, cantante, enlevado, seguia em marcha ligeira, enquanto estava deitado via as manobras de pilotagem algumas inverossímeis e tinha como mira meus pés descalços, nus, roxos de frio, que desviando os mais diversos obstáculos com habilidade magistral de piloto de Fórmula 1, chegou ao destino: Sala Cirúrgica, leio no cartaz acima de portas com molas.
O piloto da maca defronte às portas estacionou, encima do cartaz “proibido adentrar ao ambiente cirúrgico”. O clima agora é tenso, expectativa, estou calmo, simples observador, vestido de avental, único horizonte do olhar perdido os dedos dos pés que me parecem feios, desproporcionais, desiguais, roxos de frio e teto branco, próprio para o local.
Em atenção aos reclamos do piloto da maca, surge agora enfermeira sorridente, feliz em executar tarefas. Mentalmente comparo-a com o auxiliar do matadouro que encaminha o boi ao seu destino, fiel serviçal. Injustiça, moça fagueira, prestimosa, habilitada para adentrar o centro cirúrgico, assume o controle do transporte da maca, célere, demonstrando prática, desviando obstáculos com precisão, leva-me ao destino, ao altar de sacrifícios… enquanto isso, assisto impassível o desfile de imagens além das pontas dos dedos dos pés e penso. . .
Finalmente chegamos ao destino, à mesa de sacrifício… e eu deitado de costas, trajando tão somente aquele avental invertido e acrescente-se muito curto: vexame total!
Habilidosamente, demonstrando capacidade de manobra digna de qualquer piloto profissional, a graciosa e muito bem adestrada condutora da maca estacionou em paralelo à mesa cirúrgica (de sacrifícios), clamou por auxílio de outras enfermeiras que se dispuseram no outro lado da mesa e, alertando as companheiras que agarraram o lençol que a revestia, e sobre o qual estava deitado, para, no três, um, dois, três, sem qualquer cerimônia me arremessaram da maca à mesa, tal qual saco de batatas. Gesto prático, rápido, eficaz, indolor, mas mexeu com meu ego… Se cheguei ao nosocômio perfilado, impoluto, cônscio do próprio “eu”, agora não era mais do que uma “coisa”, numerado, um saco de batatas arremessado à mesa. Era adeus à individualidade…
Mas se já eram difíceis às condições até aquele momento, pior ficariam…
Deitado sobre a mesa, vestido com exíguo avental, tentando encobrir as partes interessantes, outra enfermeira, a que prepara a vítima, moça bonita, sorridente, simpática, jeitosa, com carinho e sussurrando ao pé do ouvido, disse: querido, levante um pouco a cabeça e, manobrando jeitosamente um lençol enrolado ao comprimento, passou entre os meus braços, pescoço e corpo, de forma que ficaram imobilizados os membros superiores, explicou-me: é para que não coloque as mãos quando for realizar o procedimento cirúrgico. Interessante, estava manietado! Era a oferenda manietada.
Deitado de costas sobre a mesa, manietado e vestido com avental com abertura às costas, postou-se enfermeira moça, bonita, quem sabe desejável, permaneço quieto, parado, curioso, espectador observando o seguimento: deitado, vestindo tão só o inútil avental com abertura às costas… Acima luzes, muitas, sou totalmente visível, quase transparente, imagino. A essa altura não tenho visão além do umbigo, talvez em razão da protuberância do ventre, também inquinado de barriga, e agora, o resto como está? O avental cumpre sua missão de cobrir as vergonhas? Sei lá!
Delicadamente, prevenindo atos, me sussurra a delicada profissional, agora apenas uma bonita mulher: teremos que fazer a assepsia do campo para o procedimento cirúrgico, por favor, fique calmo, tranqüilo… Algum gatilho dispara, a dúvida da discrição desperta. Que, como fazer? Estou sujeito, exposto à visão, desnudo, como será? Nessas circunstâncias quem fica calmo, tranquilo?
Se de um lado havia a preocupação por violar as regras da discrição, do comportamento ético que determina inclusive a cobertura das partes íntimas do “homo sapiens”, de outro havia a satisfação do macho desnudo diante da fêmea que poderia apreciar, ou não, a qualidade, o objeto último da sexualidade masculina. Foi apenas um instante, tempo perpétuo, a expectativa do que, de como ocorreria, da satisfação de ver e ser visto, momento eterno que se desfez instantaneamente com a observação do rosto impassível da enfermeira. Teria que ser enfermeira mesmo, justifico, pois outra seria a reação se não o fosse: da exaltação à decepção, mas nunca a impassividade que, no caso, equivale à desqualificação. Imaginava que a fêmea que estava a manipular o instrumento cortante, aparelho de barbear, à assepsia do local que seria o átrio para a introdução do aparelho para prospecção intraveicular, a virilha.
A enfermeira ensimesmada à tarefa que lhe propuseram, ora com uma das mãos esticava a pele, manejava os flácidos obstáculos eventuais, aumentava a abertura das pernas, acariciava levemente o local onde os pelos estavam sendo extirpados, enquanto com a outra com agilidade e destreza de perito barbeiro, rapidamente, sem titubear, extirpava os obstáculos à realização da prospecção programada.
…E eu deitado, praticamente desnudo, com o pensamento voltado para o infinito, imaginando…santos, querubins, tudo menos pensar na ocorrência.
Adveio após tantos acontecimentos, a introdução do aparelho cirúrgico através da artéria femoral e que faria a prospecção requerida e desejada.
Nesse momento assaltam-me lembranças: tempos passados uma parente próxima fora realizar semelhantes exames. Não que tivesse problemas, mas como prevenção, apenas para garantir o futuro. Não foi feliz, na introdução do aparelho houve o rompimento da artéria aorta ascendente e, apesar da luta insana travada pelos médicos que a assistiam, faleceu na mesa operatória. Ela sofria de aneurisma e ninguém tinha conhecimento. Assaltam-me dúvidas: e se for de família a deficiência no sistema vascular que vitimou a parente? E se também tenho a deficiência, vez que sou da família? Estaria pronto para enfrentar o além? Quê fazer? Rezar? Fugir? … Passou-me naqueles momentos todas as impropriedades que talvez tenha praticado, a partilha que poderia e que deveria ter feito, débitos e créditos que seriam espoliados. Projetaram-se amplificadamente o valor imensurável da família, dos amigos, de todos e de cada um dos que nos cercam.
Outra não foi a atitude senão conformado pedir perdão ao além e me entregar às mãos do onipotente. Quem sabe perdoado poderia usufruir das benesses do Paraíso?
Nada aconteceu. A saúde perfeita. O exame atestou a integral capacidade física e sem possíveis alterações em anos seguintes. Mas essa é visão minúscula dos fatos. O maior exame foi de consciência. Maior foi a percepção da pequenez, da insignificância da fortuna material, da importância imaterial familiar, das amizades, do convívio social, de tudo afinal que não possui preço, que não pode ser adquirido com moedas. Restou, certamente, incontrovertida a obrigação de ser melhor, de atingir o conceito de ser família, de ser amigo, de ser membro social produtivo e útil, a fim de possivelmente auxiliar a tornar o nosso mundo melhor e mais feliz.
Irapuan
13/11/2018

Em tempo: muitos dos fatos são de origem da ficção do autor.

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