O Hino

Há aproximados setenta anos, quando estava nos primórdios da infância, egresso do Jardim da Infância frequentado no Colégio Santos Anjos, distante memória, por determinação da minha saudosa mãe, eu e meu irmão, sós, numa bela e inesquecível manhã, munidos tão somente de certidão de nascimento, fomos à Escola Estadual Balduíno Cardoso solicitar matrícula, eu no primeiro ano, Fernando no segundo.
O edifício da Escola tinha a forma de ferradura, frente voltada para a rua General Bormann, acesso apenas pela parte frontal através de escadaria encimada por portão. Edificada ao alto, no entorno muro construído com blocos de pedra que ainda lá estão e se perpetuarão resistindo ao tempo.
As pontas da ferradura da edificação, voltadas para o interior do imóvel, limitavam área que no centro havia um mastro onde era hasteada a Bandeira Nacional.
O pátio da Escola era dividido ao meio por uma mureta que iniciava próxima ao mastro e seguia reta até o final do imóvel limitando parte às meninas, parte aos meninos. E cada uma das alças da ferradura dava acesso à parte do pátio: à esquerda, pátio dos meninos, à direita das meninas.
Havia, ainda, à direita da Escola, confrontando com a rua José Boiteux, um campinho de futebol que também era destinado às aulas de educação física, hoje transformado em estacionamento de veículos, infelizmente.
A Escola Balduíno Cardoso, ao tempo, era gerida com mão de ferro, inquebrantável rigidez disciplinar, à frente a saudosa professora Astrogilda de Matos, que aos mais afoitos, os que “aprontavam”, pulavam a mureta, praticavam “artes” como naturalmente acontece com “piazada” reunida, sobravam castigos, muitos doloridos, que o digam os afoitos.
As professoras e os alunos, aquelas com guarda-pós imaculadamente brancos, estes uniformizados de branco e azul, aos sábados, depois do recreio, havia o momento cívico. Era destacado pela professora de cada sala de aula um aluno, para homenagear a Bandeira Nacional que então era hasteada. Depois das homenagens, antes de baixar a bandeira que respeitosamente era dobrada e guardada por alunos designados, era saudada com hino cantado pelos alunos:
…salve o lindo pendão brasileiro…
… Ó Pátria amada, entre outras mil és tu Brasil…
Lembro e sinto até hoje enorme emoção quando ouço os hinos nacionais, sinto o coração vibrar forte, me orgulho de ser brasileiro talvez forjado nos ensinamentos escolares, quando havia a disciplina cívica instituída no currículo escolar.
Entretanto, não era tão somente o fato de obrigatoriamente haver no currículo escolar matéria cívica. Entendo como essencial o sentimento cívico que despertavam nos alunos, ao tempo, os pais, os professores, a própria comunidade que vivia, respirava brasilidade e os símbolos nacionais eram respeitados pela simples razão de ser. Lembro de ver os homens respeitosamente retirarem o chapéu quando na presença da bandeira nacional, perfilados e com a mão direita ao peito cantando o Hino Nacional todos os cidadãos independemente de idade.
E como e por que se perdeu esse sentimento de brasilidade com a fruição temporal? Acredito como causas, essencialmente, na ausência da prática dos atos civis, no descrédito das instituições políticas, na improbidade administrativa como causas principais. É preciso lembrar que é pela exemplificação que se consolida o aprendizado, quer seja no infante ou não.
Salve brasileiros! Pátria amada Brasil.

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