O inglês, a História e o ódio

O historiador britânico Niall Ferguson é conhecido mundialmente, nos meios acadêmicos, por usas análises abrangentes da trajetória histórica de povos localizados nos mais diversos pontos do planeta, em esforço consciente para apresentar interpretações que permitam compreender as alterações sofridas pelas sociedades a partir de suas próprias escolhas e não de determinações externas que fogem à sua possibilidade de controle. É claro que tal metodologia apresenta falhas e atrai críticos os mais diversos. Mas ainda assim é louvável que alguém busque colocar a cabeça para fora da água das notícias mais imediatas e geograficamente próximas para buscar compreender o movimento histórico como algo universal constituído por gomos interligados, no qual nenhuma nação é completamente autônoma nem, tampouco, completamente indefesa. Como espécie humana possuímos laços que nos ligam ao mesmo destino de povos tão distantes e diversos quanto possam ser os chineses, os coreanos e os sírios, e chega a ser trágico que nos abstenhamos de reconhecer este fato cotidianamente, o que nos permitiria compreender que por baixo do caos formado por oceanos sacudidos por poderosas – porém efêmeras – tempestades, jazem águas muito mais calmas cujo movimento é quase imperceptível apesar de constante.
São nessas águas mais profundas que Ferguson busca explicações para a realidade que nos rodeia. São nelas que residem seres raramente vistos que, içados à superfície, nos permitem formular questões simplesmente incompreensíveis à maior parte das pessoas. Seres que, embora raros, desfilam abertamente e em abundância na obra A guerra do mundo. A era do ódio na História, cuja leitura recomendo a todos que tenham interesse na compreensão dos movimentos profundos da história dos quais, obviamente, não temos meios nem, muitas vezes, vontade de escapar. Trata-se de um estudo centrado no século XX. Mais precisamente nos acontecimentos mais catastróficos da centúria na qual muitos de nós nascemos, quais sejam as duas guerras mundiais e outras tantas que ocorreram antes e após. De saída, ao analisar o século como um todo, surge uma tese histórica inovadora e fascinante: o que assistimos entre 1914 e a década de 1950 não teria sido uma sucessão de conflitos devastadores, mas apenas e tão somente um único conflito dividido em diversas fases. Uma espécie de Guerra dos Cem Anos dos tempos modernos.
Tese sem dúvida instigante. Mas restrita, é certo, ao círculo de historiadores interessados nesse tipo de sugestão. Ferguson apresenta, contudo, outra ideia, complementar a essa primeira e certamente mais interessante para todos aqueles que não fizeram do estudo da história sua profissão. Segundo o britânico, o que teria tornado possível que atrocidades como o genocídio dos armênios de 1915 e o holocausto judeu pudessem acontecer foi o surgimento e fortalecimento de um ódio sem precedentes, impulsionado por grupos ansiosos por tirar vantagem de algo que, eles logo compreenderiam, simplesmente não pode ser controlado. Incitar a aversão mais profunda nos seres humanos, fazendo com que trabalhem pelo aniquilamento de vizinhos, parentes e amigos configura, para o respeitado historiador, o caminho mais curto para a garantia de que catástrofes ocorrerão. E, aqui, apresento minha mais profunda concordância com meu nobre – e famoso – colega de profissão. Basta ver o que temos no mundo hoje. Sim, no mundo, para que tenhamos a clareza de que o que vivemos no Brasil hoje é apenas parte de algo muito maior e mais sinistro, daquele movimento de águas profundas que tantas vezes tendemos a ignorar.
A eleição de Donald Trump nos EUA com farto uso de notícias falsas disseminadas por ferramentas como o Facebook e o WhatsApp, frases fáceis e ampla exploração dos receios mais arraigados de camadas inteiras da sociedade daquele país representou apenas o prelúdio de um governo pródigo em discriminar, perseguir e ameaçar. O mesmo se passou nas eleições francesas, embora aqui, para minha alegria, o candidato adepto de princípios fascistas tenha sido derrotado. Li neste fim de semana, em um conhecido periódico inglês, a notícia de que o antissemitismo está ressurgindo com força na Alemanha impulsionado, vejam vocês, pelo ódio de migrantes muçulmanos que, ontem, pediam asilo no mais completo desespero, e hoje usam de cintas para agredir judeus nas ruas de Berlim. Judeus, é bom que se diga, alemães de nascimento. Quanto ao que se passa no Brasil creio que não preciso repetir comentários já antigos. Basta abrir o navegador em nossos notebooks ou os aplicativos de ícones azul e verde em nossos celulares para presenciarmos a proliferação de asneiras indignas de seres que se dizem racionais sem a menor capacidade de senso crítico, tanto em um quanto no outro lado de nosso sempre confuso espectro político. O ódio impera. As falsas notícias arrastam multidões. Respeitáveis pais de família esposam conceitos deploráveis e juram apoio a pessoas capazes de proferir frases que envergonhariam mesmo crianças em tenra idade, caso bem educadas. Tudo em nome de valores difusos e mal expressos. De ideais que ninguém consegue definir com precisão. De um movimento profundo que a todos arrasta em nome de uma liberdade que muitos parecem ansiosos por asfixiar. Niall Ferguson, do alto de seu pensamento neoliberal (para que não digam, imersos na mais completa ignorância, que estou citando a obra de algum marxista barbudo), parece ter acertado na mosca ao apresentar o que entende ser a principal razão para as maiores catástrofes que nossa memória consegue resgatar. Diversa dos demais animais por sua capacidade de raciocinar, a humanidade parece estar abrindo mão voluntariamente desta possibilidade. O resultado, claro está, não pode ser positivo.
A aversão ao próximo e o impulso pela aniquilação do diferente, seja do ponto de vista social, sexual, filosófico ou político, apenas pode levar a movimentos totalitários que não tem no incentivo ao pensamento sua marca distintiva. Apenas para corroborar esta análise acabo de ler em uma outra janela de meu computador, fixa em um conhecido site e notícias, comentários depreciativos sobre pessoas que morreram no trágico desabamento de um prédio no centro de São Paulo, na madrugada da última terça feira. “Também, se invadiram algo que não era deles tinham mais que morrer mesmo”, diz um ser que se apresenta com um pseudônimo nada edificante. Como se a pobreza extrema fosse, por si só, um crime passível de pena capital. Acabemos com a miséria econômica e social de nosso país e de todo o mundo, exterminando os pobres. Nada mais simples. Nada mais odioso. Nada mais irracional. Como bem explicado, quem diria, por um notável historiador neoliberal britânico. De fato, o mundo está de cabeça para baixo. Até a próxima!

 

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