O ódio precisa ser sustentado

Winnicott tem um conceito referente à função materna, holding, geralmente traduzido por sustentação, e está relacionado à apresentação do objeto, bem como sua ausência, mas acima de tudo na manutenção de sua permanência, o que significa que ele deve ser desejado em sua falta, e reconhecido em sua apresentação. Este laço primeiro, como se sabe, estrutura todos os subsequentes. O objeto no entanto, não é a mãe, a mãe é uma função. É preciso, então, nas crianças crescidas, que haja uma sustentação do objeto no tocante à permanência do desejo, e isto é possível pelo fenômeno da transferência, que não acontece somente na clínica, mas na política. O pai, substituto da lei, assume um papel nas interdições, ele proíbe, tudo conforme a edípica freudiana, mas há um elemento escamoteado. Ao interditar, no outro, para ser razoável ao contexto atual, o acesso a um determinado gozo, seja por motivos morais ou convenientes, se está na verdade a confirmar a existência de tal gozo, e portanto a contar-se como subtraído dele. Decorre assim que tal gozo precisa ser interditado no outro para causar uma espécie de norma, onde todos tem direito ao gozo, mas ao gozo interditado. A constatação da existência de outro gozo, negado ao sujeito, implica então em uma reação não em direção ao pai que o teria proibido, pois o consenso é que tal gozo deve sempre ser proibido, mas em direção ao outro que o deteria. O pai, para ficarmos no campo metafórico, sustenta então a posição de que este outro gozo deve ser combatido, num passe que implicitamente carrega as seguintes indicações: 1 – há um outro gozo; 2 – o outro goza desse gozo, você não; 3 – ele precisa ser eliminado. A ambiguidade pouco evidente nisto é que se o sujeito, por não ter acesso a este gozo, o combate, então, ele o deseja, e portanto o repudia, pois é imoral. Mas por que o sujeito desejaria algo que repudia? Eis a função que a sustentação do ódio fornece. Ao repudiar, no outro, seu desejo, um alvo é determinado, portanto o sujeito pode alienar-se de si e dirigir o ódio ao gozo do outro, não a seu desejo. Bastaria, para tal figuração, demonstrar que o outro não goza, não mais que ele próprio, mas isto leva a dois problemas: o primeiro e mais óbvio é que não é verdade que o outro não goza, o que está em questão é que o sujeito que o odeia, coloca-se na posição de objeto desse gozo; segundo: ao negar a existência desse gozo do outro, imediatamente o gozo se deslocaria para o Outro, pai. Portanto, não é pela via da negação do gozo do outro que se deixaria de sustentar o ódio. Havendo um que goze, ao menos um, é o suficiente, e isto sem entrar no imperativo superegóico: goze! Assim sendo, a única via de desarmamento do ódio ao gozo do outro é pela queda do Outro, pai, ou seu equivalente: a castração. É somente na medida em que o pai não detém todo o gozo, mas que, para além disso, não pode ter, que se abre a possibilidade de que aqueles que o seguem também não o terem. O pai não todo poderoso, portanto castrado, abre o campo do feminino, que é precisamente impedido pelo ódio. Tem-se uma estrutura patriarcal mítica onde o outro gozo, e portanto, o feminino, é rechaçado enquanto gozo, forçado a ajustar-se ao fálico. Só que não é possível ignorar que o rechaço não elimina tal gozo, especialmente na fantasia (onde há par), uma vez que ele ultrapassa os limites do gozo fálico. Portanto ao proceder assim se cria um impasse: ao negar a existência ao gozo feminino, só há gozo homossexual. Isto não está distante, no entanto, da erótica dos filhos submeterem-se ao pai, mas ao contrário, tornam-se assim dele objeto. O ódio ao outro transfere a interdição da lei do prazer, cujo mandamento é não chegar até o gozo, para o outro, encarnação da transgressão. Mas é preciso que esta transgressão seja reservada ao pai. Se a ele, então, for retirado (sempre em retrospecto) o poder de transgredi-la, então ele será incapaz, como nós, portanto castrado, e deste modo pertencente à lei, e não mais sendo a lei. A partir desta operação se pode abordar o gozo feminino pela via que extrapola o gozo fálico, e assim, dele obter alguma diferença em relação a este.

Psicólogo clínico, especialista em Teoria Psicanalítica e em Neuropsicologia. Atende em Caçador e União da Vitória. giuliano.metelski@gmail.com – WhatsApp: (49) 99825-4100 / (42) 99967-1557.

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