O primeiro baile e o nascimento de um sonho

Quando escrevi em dezembro do ano passado a segunda crônica em homenagem a Nivaldo Feliman Camargo, meu amigo desde os 10 anos de idade, e, portanto, há 45 anos, eu a enviei a alguns amigos e amigas em comum e recebi no dia seguinte ao envio um longo e sensibilizado e mail de Malu Longhi, nossa amiga de adolescência. Malu me dizia que ao voltar para casa após o sepultamento de Nivaldo, algo a incomodava mais que a tristeza sentida pela perda, sentida por ver a família de Nivaldo, tão bonita, devastada pela dor. Ela comentou comigo que ao ler minha crônica foi compreendendo o que a entristecia ainda mais. O rompimento de um vínculo com nosso passado, forjado em meio a um período de descobertas e consequente afastamento de nossas famílias e o quase que integral envolvimento com o pequeno grupo de amigos, no qual íamos construindo nossas próprias identidades. Malu conseguiu traduzir com exatidão a dor e a tristeza que nos amargurava e creio vai nos amargurar para o resto de nossas vidas.
No entanto, nos confortamos com as boas lembranças que preenchem um pouco do imenso vazio deixado pela estupidez de uma ausência, ainda difícil de acreditar, como disse outro amigo comum, Orleans Antunes de Oliveira.
Recorro a Jeff Beck e Eric Clapton para prosseguir escrevendo e a canção me remete de imediato, embora nada tenha a ver com o que vou narrar a um Baile dos Jogos da Primavera de 1974.
O baile foi no Clube Aliança, em setembro ou outubro daquele ano, Nivaldo tinha acabado de fazer 17 anos, e, eu, ainda tinha 16, e acho que foi nosso primeiro baile. Havíamos obtido os ingressos de Fernando Boni, meu vizinho e que possuía um equipamento de som e já tocava em bailes e festas, e, nos deu os ingressos porque eu havia lhe emprestado vários discos que ele já naquela época, mixou e gravou. Não tínhamos namorada e fomos sozinhos já que nossos outros amigos, por motivo qualquer, não foram.
Ao lembrar nossa chegada ao clube me vêm, de imediato, as palavras de Malu: “era uma época de descobertas” e ficamos deslumbrados com a parafernália de luzes e mega watts que Boni havia instalado lá.
Nivaldo sempre dizia que sua memória era ruim e que eu devia escrever nossas memórias, já que a minha sempre foi muito boa. Pois então, lembro-me do que estava tocando quando chegamos ao baile, House upon a Hill, That’s what living is about, ambas com Paul Anka e que Boni mixou com Do i love you, também de Paul Anka e que agora estou ouvindo.
São duas belas baladas e naquele tempo ainda se dançava junto e a pista estava, completamente, cheia e mesmo assim as passagens laterais continuavam tomadas. Com dificuldade em nos locomover, demos assim mesmo, algumas voltas pelas passagens laterais, totalmente embevecidos, com a pirotecnia da iluminação, em especial com a submarina, que veríamos dias depois na casa de Boni e acabaríamos inventando uma submarina caseira, em vários slides, vamos assim dizer, que construímos com pequenos vidros cortados em uma vidraçaria e nos quais colocávamos azeite e tinta de duas cores diferentes. Colávamos dois pedaços de vidro com fita durex e os inseríamos em um retro projetor. O azeite não permitia que a tinta se misturasse e produzíamos vários slides de diferentes cores que projetávamos na parede, criando um efeito, altamente, psicodélico, como o da submarina original. Projetávamos primeiro só em casa, mas já com o objetivo de utilizá-la nas festas que pretendíamos tocar com o Alucinasom, que estava sendo montado por Nivaldo, Rubio, Paulinho e eu.
Mas voltemos ao baile. Já meio em seu final, subimos ao palco onde Boni estava com seu equipamento e vimos lá de cima, ainda mais abestalhados, os efeitos das luzes e daquela sonzeira produzida por um amplificador Kenwood e por uma infinidade de caixas acústicas.
Como éramos menores e tampouco tínhamos carro ou carona, fomos embora a pé, claro depois que tocou a última música, já com a ideia fixa de juntar uma grana e montar uma equipe de som. Nascia naquela madrugada o Alucinasom, que ainda nem tinha nome, mas que seria assim batizado, meses depois, por minha prima Lenita Cordeiro Augusto.

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