O problema da consciência

O discurso científico visa a natureza, mas ignora completamente que a natureza é efeito do significante, isto é, que seu objeto não é outro, senão o real significantizado. A isto decorre que, se existir um inconsciente coletivo, que não caiba no termo linguagem, mais precisamente à produção cultural histórica, ele é por definição inanalisável, posto que não há pergunta sem resposta. Bem entendido, não há modo algum de simbolização do real senão através de um sujeito, ainda que suposto. Quando se vê pinturas na caverna, lá se supõem sujeito. Derrapar a questão para a consciência que o sujeito tem dela, e portanto, sem a qual não há nenhuma, não implica que o real seja de todo apreendido por ela, nem por ele, e nem mesmo que seja apreensível. Um computador pensa, certamente, mas se e somente se houver precedente: ele não pode processar significado de símbolos a partir de zero, é preciso ensiná-lo o que o símbolo comporta. Ocorre que o falante também não, dado que é constituído pelo Outro, ordem simbólica, que lhe confere apenas o traço de seu desejo. Como esse traço é uma marca sem percepção, resta sonhar, significa regressar a percepção à memória. O caminho progressivo pode reencontrar seu aprendizado, sempre atualizado, renovando a pergunta, no significante, mas a consciência, assim, não passa da percepção da ocorrência desse discurso, jamais, por assim dizer, a consciência da consciência. É por este mesmo limite estrutural que não se pode formular o real, ou que não haja Outro do Outro, sonho metalinguístico. A isso o discurso científico busca escamotear com o termo objetividade, rechaçando que seu objeto, no máximo, é ele próprio.
Encontrar correspondência entre termos, estabelecer regras e leis, são operações opostas à análise, pois são construções, associações (ainda que lógicas), e portanto, relações de sentido, de significado, sendo assim, por isso, passíveis de análise. Mas a análise não visa o sentido, justamente porque o sentido é jogo imaginário, nunca se pode sair do sentido pelo significado. A este significado que o sentido estabelece, a esta construção, à produção incessante do inconsciente a análise reservou o termo neurose, que nada mais é que a resposta inconsciente ao real (Lacan). Por isso as produções de sentido divergem, entre as estruturas e tipos clínicos. Elas produzem sintomas, que são, por sua estrutura, o sentido em potência, e isto é interminável. A análise busca justamente por um fim a esta produção excessiva por atacar o seu núcleo formador, a fantasia. Isto porque a repetição opera de modo a produzir gozo, e este gozo tem seu amparo num tipo específico de relação com o objeto da fantasia. Só que é impossível analisar a fantasia isolando o objeto, como a consciência que estuda outra consciência, no discurso científico, pretende-se imparcial, um juiz, e desloca-se para fora de si (mas para onde eu pergunto?). Pelo contrário, o objeto confunde-se na fantasia com o sujeito, troca de lugar com ele, e isto é legível porque ele goza, e quando goza, como o masoquista ao se fazer de sádico, ele reencontra sua posição original, aquela que interpretou ser enquanto objeto do desejo de seu Outro. Esse é o limite (do simbólico). Não se pode ser objeto do desejo do Outro do Outro. Portanto, reconhecer que um inconsciente coletivo é inanalisável implica em que, ele nunca, jamais, estaria fora do inconsciente do sujeito, que o interpreta, ou seja, a rigor, não existe, senão, como suposição. O problema epistemológico, a meu ver, na postura junguiana foi ser cientista.
Isto porque a ciência supõe saber na natureza, e o traduz, pela matemática, esquecendo que o saber é, na verdade, construção na linguagem (mesmo a matemática). A postura científica, por ignorar a impossível formalização do real, sustenta a miragem do saber absoluto, da identidade suprema. Em outros termos, ela regressa do discurso do mestre ao do universitário, e deste se adianta ao do mestre. Não ousa um quarto de giro adiante, do discurso do mestre ao da histérica. Mas se o fizesse, estaria a um passo do discurso analítico:

Psicólogo clínico, especialista em Teoria Psicanalítica e em Neuropsicologia. Atende em Caçador e Uniãao da Vitória. giuliano.metelski@gmail.com – WhatsApp: (49) 99825-4100 / (42) 99967-1557.

 

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