O Processo – Kafka e o Impeachment

O documentário O Processo, de Maria Augusta Ramos, estreia comercialmente em diversas salas do Brasil no próximo dia 17. O filme teve estreia mundial em fevereiro deste ano no Festival de Berlim, onde foi ovacionado por vários minutos. Depois disso passou pelo circuito de festivais e foi premiado no festival de Documentários da Suíça. Em Curitiba foi o filme abriu a programação da mostra Cinema pela Democracia, na praça Santos Andrade em evento ao ar livre – já por si só algo raro na capital paranaense que tem chuva em média 200 dias por ano. Da praça seguiu para o acampamento Lula Livre, em que foi exibido no dia 4 de maio. A maioria do público do documentário era de ativistas de esquerda e artistas locais. O que não quer dizer que o documentário seja uma obra ativista ou panfletária.

Seguindo as principais figuras do processo de impeachment de Dilma Rousseff, o documentário tenta jogar alguma luz nos motivos que levaram a aceitação da denúncia no congresso, passando por todo o processo de julgamento. Sem realizar entrevistas diretas, a câmera de Maria Augusta adentra as salas em que os senadores alinhados com a política da esquerda debatem como expor a farsa de todo o processo de impedimento. Depois acompanha as estratégias do advogado de defesa José Eduardo Cardozo e seus discípulos. Vale notar que todos estes personagens, bem como a própria Dilma, já sabiam que o resultado era irreversível. Ressaltavam ali a importância de descortinar a farsa, a falta de respaldo jurídico.

Os personagens da direita, porque deram menos acesso às câmeras da documentarista aparecem ou nas próprias sessões plenárias ou dando entrevistas a veículos de imprensa. De igual medida Maria Augusta Ramos contrabalanceia falas de Lindbergh Farias com Aloysio Nunes, de Janaína Paschoal com Gleisi Hoffmann. Mas se todo processo é uma farsa, Ramos se vale da figura da advogada de acusação como elemento de comicidade, seja nos discursos aos prantos de Janaína ou nos alongamentos pré-tribuna, ou ainda na célebre frase final em que pede desculpas a Dilma e diz que o que está fazendo é pelos netos dela. Esse momento é seguido de fala de Cardozo, em que afirma que sempre há relampejos de consciência.
O documentário se chama O Processo justamente para fazer um paralelo a burocracia paralisante do romance de Kafka. Fica claro que o impedimento da presidente Dilma foi um artifício, uma manobra política, sem real respaldo jurídico, mas uma pequena falha burocrática que foi assumida como legal pouco tempo depois da saída da presidente.

O filme ainda acompanha o que se seguiu a destituição de Dilma, contrapondo às imagens de mulheres com flores que foram saudar a então presidente, com imagens das bombas que Temer mandou jogar nos manifestantes quando da denúncia de Joesley em 2017 – hoje arquivada. No meio do absurdo processo ainda vemos a famosa e já desgastada e deslocada frase de Jucá, aquela do estancar a sangria. Das mais de 400 horas de filmagem sai uma edição ágil, que nos apresenta personagem atrás de personagem, traçando um panorama do que foram aqueles meses em Brasília, algo que muitos chamam de a morte da democracia no nosso país.

Um dos momentos mais interessantes é a fala do senador Roberto Requião, em que ele antecipa tudo que vai acontecer no governo Temer, caso se permita que ele exista. Ele desvenda a ponte para o futuro ponto a ponto, falando dos retrocessos e dos atrasos que estamos vivendo quase dois anos depois do afastamento de Dilma. O que Requião diz são coisas que nunca foram assumidas, nem antes e nem agora, no programa de governo avesso àquele que tinha elegido o PT. Mas ele enuncia e está tudo lá, está tudo aí. A perda dos direitos trabalhistas, o aquífero guarani, tudo. Some-se a este momento outro de igual importância, quando Gleisi admite que mesmo que sobrevivesse ao processo de impeachment, Dilma não teria como governar. Porque se recusou a continuar com acordos escusos, a gente sabe isso hoje. A gente sabia na época e permitiu mesmo assim. Todo mundo sabe que impopularidade não é causa pra impedimento, se fosse Michel não estaria no lugar onde está.

Outro ponto chave do documentário é o entendimento do erro do Partido dos Trabalhadores, as graves falhas com o movimentos sociais, que não foram recebidos ou foram até mesmo rechaçados tanto no governo Lula quanto no governo Dilma. As falhas em legislação ambiental e de minorias dos governos de esquerda são quase imperdoáveis, principalmente no auge da popularidade do presidente Lula. E o próprio partido entende isso finalmente.

O documentário acaba com a prisão de Lula, deixando claro que o processo como um todo começa em abril de 2016 e só acaba agora, com a impossibilidade da candidatura de Lula. Talvez as eleições ainda se provem uma continuação de tudo isso, não se sabe. O que se sabe é que o filme é um retrato claro de uma farsa política, ovacionado em todos os lugares do mundo por onde passou. Embora não seja capaz de sozinho ressuscitar a nossa democracia, é capaz de denunciar o que aconteceu no Brasil.

 

Leave a comment

Your email address will not be published.


*


Carregando...