O Stand-up manifesto de Hannah Gadsby

Há alguns dias estreou na Netflix o show de stand-up comedy de Hannah Gadsby, Nanette. A Netflix anda com essa de fazer ou distribuir muito conteúdo de comédia stand-up, justamente pelo alto retorno de público e baixo custo de produção. Tem uma avalanche de programas do tipo no canal de streaming, a maior parte insignificante ou irritante. Alguns bons comediantes, com um novo tipo de humor inteligente. E aí tem a Hannah Gadsby com esse show que não dá pra chamar meramente de stand-up comedy, especialmente porque apesar de ser muitíssimo engraçado ela renuncia à comédia em favor da própria história, uma renúncia da risada da punch line pelo começo-meio-fim da história. E ao renunciar à comédia e ao riso previsível, ao trazer ódio e tristeza para seu discurso o que Gadsby acaba fazendo poderia muito bem ser chamado de stand-up manifesto.

Gadsby não faz concessões, ao abordar o tema da descoberta de sua própria homossexualidade, para falar sobre sua saída do armário, sobre misoginia e homofobia – dos outros e a internalizada por ela própria. Hannah nasceu na Tasmânia, uma ilha da Austrália muito conservadora, conforme a própria comediante narra, com 70% de sua população acreditando que a homossexualidade deveria ser crime nos anos 90. Da metade pra frente ela deixa o humor autodepreciativo de lado em favor da honestidade brutal. Ela volta a uma história que havia contado no início, com uma punch line fácil e aprazível, para desconstruí-la com a verdade. É uma história de espancamento. De uma surra terrível que levou por ser uma lésbica masculina aos dezessete anos de idade. Ela narra com raiva e tristeza os abusos que sofreu, o estupro, a surra. Ela volta à relação com mãe, que se num primeiro momento não aceitou a homossexualidade da filha, fazendo parte da piada, agora Hannah reconhece, na história real, como uma mulher incrível, que pediu perdão por tê-la criado como heterossexual, pois era a única coisa que ela entendia de mundo. Ela é brutalmente honesta, para o bem e para o mal. Por cerca de vinte minutos de show fica impossível rir de qualquer coisa que ela está contando. E tudo bem, porque a gente já riu bastante nos minutos anteriores. E as coisas que ela diz são profundamente mais importantes do que risadas.

Ela chama os homens à responsabilidade. Não só os comediantes, não só os comediantes de stand-up, não só os homens brancos, não só os homens heterossexuais, mas especialmente os homens brancos e heterossexuais. Ela lhes atribui à responsabilidade de fazer algo – abrir mão de seus privilégios – para equilibrar as balanças, para que mulheres não sejam espancadas, estupradas, abusadas. Ela fala dela própria, de sua homossexualidade e de sua representação de gênero. Mas também fala de Monica Lewinsky, que foi crucificada e transformada em piada no lugar de Bill Clinton. Ela fala de sua formação em História da Arte e da loucura de Van Gogh e da doença que assolou Picasso: a misoginia. Ela fala de Bill Cosby e de Harvey Weinstein, faz um ataque frontal e direto ao mundo da cultura, arte e entretenimento que insiste que é necessário julgar a obra e não o artista. Ela rebate: ninguém compraria esses quadros com todas as perspectivas, que parecem tortos se não fosse a assinatura de Picasso embaixo. Picasso, aliás, é um dos alvos mais intelectualmente bem atacados, bem desconstruído. Van Gogh surge não como o gênio pela loucura, mas como uma figura que só não se despedaçou por completo e caiu no anonimato ao morrer antes de pintar seus quadros mais famosos porque tinha um irmão que o amava.

Gadsby põe em cheque tudo que existe de verdadeiro sobre o mundo do humor, sobre as piadas de humor autodepreciativo. Ela diz em dado momento: “Você sabe o que autodepreciação quer dizer para alguém que vive à margem? Não é humildade. É humilhação”. Ela coloca em cheque o valor de uma piada.

Em tempos de youtuber virtualmente desconhecido para adultos, mas ídolo de crianças, fazendo piadas com racismo, Hannah Gadsby se torna mais importante ainda. Que Cocielo tenha perdido seus patrocinadores e afundado a rentabilidade de sua carreira pela oportunidade de fazer troça de um grupo da população oprimido é importante. O show de Gadsby é uma piada/manifesto duradouro. E olhando pra tudo isso só é possível desejar. Um mundo com mais Hannahs e menos Cocielos.

 

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