O tempo da memória

 

Aproprio-me do título do livro do filósofo Norberto Bobbio, para dar nome a esta crônica. Em seu livro, Bobbio tece profunda reflexão sobre sua trajetória intelectual e, portanto, seu passado. Mesmo com minha grande dificuldade visual, ainda consigo assistir filmes na televisão, precisando para isso, me sentar em frente ao aparelho, ficando de 20 a 30 cm, da tela. Claro que não consigo mais perceber a todos os detalhes de um filme, mas para isso conto com o auxílio daqueles que assistem os filmes comigo, na maioria das vezes, Margarete, minha mulher. E foi assim que assisti há alguns dias o belíssimo Aquarius, de Kleber de Mendonça Filho, com magistral interpretação da diva, Sônia Braga, que tenho certeza teria concorrido ao Oscar de melhor  atriz, se Temmer e seus asseclas, em manobra sórdida, não tivessem tirado o filme  da lista dos brasileiros indicados ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Ovacionado por vários minutos em Cannes e aplaudido por onde passou, o filme é um libelo à resistência. Mas antes disso, é uma poderosa reflexão sobre nossas memórias e, sobretudo sobre a necessidade que alguns de nós, temos de preservá-la. Vejo o apartamento donde cresceu e mora a personagem Clara (Sônia Braga), no Edifício Aquarius, como a rua Barão do Cerro Azul, onde vivi desde meu nascimento até meus 23 anos e em especial à casa de minha mãe e tias onde vivi dos 3 aos 23 anos e onde elas residiram até seus últimos dias. Residindo no número 269, da Barão do Cerro Azul, fiz meus primeiros  amigos,  vivi minhas primeiras paixões, conquistei minha primeira namorada, vivi minhas primeiras desilusões,  aprendi com as incontáveis brigas de rua, a perder o medo e a defender a qualquer custo, o que julgávamos nosso sacrossanto território.  Foi aqui também, com sangue suor e lágrimas, que construímos nossas identidades e muitos planos que nunca se realizaram, quase sempre ouvindo Pink Floyd, Genesis, Focus, Yes, o emblemático, Blood Sweet and Tears e o talvez, para mim, mais inspirador, Traffic. Foi aqui que ganhei meus primeiros gibis da Marvel e meus primeiros discos, primeiro os compactos e depois os LPS. Foi nesta rua, no Natal de 1972, que eu e meus amigos ganhamos nossas bicicletas, antes, havíamos ganhado nossas vitrolas portáteis e no Natal de 1973, eu e meus amigos ganharíamos nossos gravadores de fita K7 e no Natal de 1974, eu ganharia meu primeiro aparelho de som stéreo. Eu o instalei na sala de minha casa, onde toda noite eu e meus amigos ouvíamos música até tarde da noite. Foi aqui na Barão do Cerro Azul que vi meu primeiro amigo, Tyrone Braz Duarte, em 1969, ir embora para Ponta Grossa e meus amigos Zinho, Paulo, Marcos e Soraya Murara irem embora para Canoinhas, em 1975. Foi aqui, dessa forma, que aprendi como é difícil, na adolescência, se afastar dos melhores amigos. O mesmo se daria com Nivaldo Camargo que em 1976, prestaria o Serviço Militar em Brasília.  Foi aqui que comecei a ir ao cinema com minha, ora com minha mãe, ora com meus tios e depois com meus amigos. Ainda lembro-me de cada filme e com quem os assisti. Foi aqui também, que sempre ao lado de minha mãe, assisti as minhas séries favoritas na televisão. Foi aqui que tive meu primeiro cachorro e principalmente meus primeiros gatos, cheguei a ter 13, e ainda sei o nome de todos eles. Foi aqui que, primeiro cobrando assinaturas para o Jornal Caiçara e depois com o que ganhava com o Alucinasom, comprei minha primeira calça Lee, meus primeiros livros e presentes para minha mãe, tias e namorada.Foi aqui que escrevi meu primeiro poema, hoje já não os escrevo mais, quem sabe um dia desses volte a fazê-lo. Foi aqui também que há exatos 40 anos, escreveria minha primeira coluna para o Jornal Caiçara. E é aqui que, ouvindo as canções La Cathedrale de Strasbourg e Brother do Focus, acabo de escrever essa crônica, ou melhor, ditar para meu computador, assim meio, como a escrita automática, dos surrealistas, que depois precisa ser revista por Margarete que a lê para eu fazer as correções necessárias. Aquarius é fantástico primeiro pela resistência da personagem central aos especuladores imobiliários e grandes construtoras que como estamos vendo, tomaram de assalto o poder, manipulando como bem entendem, os corruptos de plantão, mas principalmente, por nos fazer valorizar ainda mais essas nossas tão caras e indeléveis lembranças.

1 Comment on O tempo da memória

  1. Caro Delbrai, estive em Strasbourg recentemente, visitei a Catedral, caminhei pela sua nave, me encantei com sua arquitetura e conheci o Relógio Astronômico. Lá lembrei de você, de suas crônicas e especialmente desta. Foi para mim um grande momento e mentalmente o compartilhei contigo. A história da Catedral, sua obra e seu Relógio é uma coisa fantástica. Suas lembranças e seus escritos Delbrai nos ajudam a viajar. Obrigado e continue nos brindando com sua sutil sutileza.

Leave a comment

Your email address will not be published.


*


Carregando...