Onde fica a memória?

No cérebro! Diria a neurociência. Nos livros, na escrita, no tesouro verbal, qualquer falante poderia afirmar. No inconsciente. Sem dúvida. Há no revisionismo algo muito próximo ao que ocorre numa análise. Nós e os revisionistas entendemos que o passado muda, não é extático. Isto porque, junto com os historiadores, reconhecemos que a história é narrada, e isto implica em versões dela, em interpretações dos fatos históricos. Na análise, entretanto, por vezes se descobrem engodos, equívocos, leituras de experiências infantis por olhos de um adulto, analisante, e isto muitas vezes desfaz versões antigas. A verdade, portanto, aparece através do erro, e isto tem implicações estruturais no sujeito: a retificação de uma interpretação tem efeitos no futuro. Daqui em diante, sendo assim, aquele nó desfeito dará lugar a um vazio, e neste ponto o significante se renova, conforme o desejo. Esta desconstrução, se o termo for adequado, não deixa de implicar que o vazio em questão é apenas ideal, não dura mais que o tempo da angústia. O que vem em seu lugar, no entanto, é contingente, por isso intuitivamente as pessoas temem, em geral, uma análise. Elas não estão certas se esta troca será vantajosa, nós por outro lado não podemos prever resultados, apenas garantir que, seguidos método e técnicas, mudanças ocorrerão. O que radicalmente nos diferencia de qualquer revisionismo histórico é que a análise busca desvelar o próprio revisionismo, a fantasia fundamental segundo a qual a neurose forma sentido atrás de sentido, numa coerência forçada e que dita o rumo da vida sujeito. Mas infelizmente não é o caminho menos penoso, analisar-se com rigor requer um desejo quase inabalável. Ao contrário, entretanto, do revisionismo estratégico que ocorre na política com intuito de ditar a verdade, onde a verdade torna-se relativa. Como na análise se pode percorrer o caminho inverso da instauração da neurose, chegando-se a pontos estruturais, pode-se igualmente falsificar a história e produzir delírios coletivos. Todos os delírios coletivos recentes, da Terra plana ao nazismo de esquerda, têm o mesmo formato e método (e erro), eles empurram a verdade para o lado do inimigo – sabemos o efeito poderoso que tem o retorno do recalcado, aguardemos – e instalam uma versão alternativa, forçosa, quando não absurda. É inacreditável que isto se mantenha ainda. Ao expulsar a verdade de seu campo discursivo o revisionismo só pode avançar, ele precisará redizer tudo. E as implicações inconscientes disso serão indeléveis em muitos casos, simplesmente porque é desde este lugar de alienação no desejo do Outro que o sujeito deseja, age, fala, ama e odeia. Neste momento discute-se revisionar o golpe militar de 64, aliás já revisto pelo presidente da corte suprema chamando-o de movimento de 64, nos livros didáticos. Se alguém acha as discussões de facebook horríveis, aguarde, a partir deste ato, as próximas gerações.

Psicólogo clínico, especialista em Teoria Psicanalítica e em Neuropsicologia. Atende em Caçador e União da Vitória. giuliano.metelski@gmail.com – WhatsApp: (49) 99825-4100 / (42) 99967-1557.

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