Os imigrantes de lá e os de cá

A notícia pode parecer “velha”, mas continua se repetindo dia após dia nas várias praias mediterrânicas do sul europeu: milhares de refugiados arriscam suas próprias existências e as de seus entes mais queridos na tentativa desesperada de conquistar o direito de recomeçar. Longe de suas conturbadas terras natais marcadas pela crise, por perseguições dos mais diversos matizes, pela guerra interminável de grupos que talvez nem sabem mais porque matam, sonham com um futuro minimamente digno no qual possam gozar plenamente de sua condição de seres humanos. Um futuro que ofereça oportunidade de estudo para seus filhos e, com alguma sorte, de trabalho para eles. No qual seja possível acordar sem os sobressaltos provocados pelas explosões ou sem a ansiedade motivada pela possibilidade de uma invasão inesperada da própria residência. No qual a própria sobrevivência não seja um objetivo perseguido arduamente a cada instante. Em uma palavra, um futuro que lhes ofereça uma vida que nós, um tanto ingenuamente, consideramos “normal”, “trivial”, ou, no auge de nosso recorrente mau humor, até mesmo “banal”.
O relato tão conhecido, as cenas que nos chegam sem cessar através dos modernos e cada vez mais rápidos meios de comunicação, bem como as manifestações de repulsa dos que se sentem invadidos em seus países, lesados em seus direitos, afrontados em seu orgulho nacional não representam, contudo, qualquer novidade na trajetória da humanidade. Muito longe disso. Quando folheamos os livros e coleções de história nos deparamos com inumeráveis relatos de deslocamentos de grupos mais ou menos numerosos motivados pelas mais diversas razões, nas mais diversas épocas e regiões. Partindo do berço de nossos primeiros ancestrais, no interior da África, não foi de outro modo que ocupamos os demais continentes, há centenas de milhares de anos. E já em tempos tão remotos a recepção a nossos primeiros avós nas terras onde chegavam não deve ter sido a mais festiva: animais selvagens, vegetação cerrada, um clima radicalmente diverso do já conhecido. Mais tarde, a este “comitê de boas vindas” juntar-se-iam estes nossos longínquos antepassados, já então receosos dos riscos representados pela chegada de outros estrangeiros esquecendo-se, convenientemente, que também eles já haviam sido migrantes e que aquela nem sempre havia sido a “sua” terra.
Mas não precisamos ir tão longe no passado. Olhemos ao nosso redor. Digamos em voz alta (ou mentalmente) os nomes de nossos conhecidos, familiares, amigos. Seremos rapidamente lembrados, através deste simples exercício, de algo que nos aproxima e identifica com aqueles que, à primeira vista, parecem tão longínquos e abstratos: somos nós também imigrantes, refugiados, herdeiros de um recomeço que em algum momento se tornou inviável em outro lugar. Vindos dos mais diversos países do globo ou, até mesmo, de outras regiões brasileiras, nossos pais (ou nós mesmos) escolheram esta cidade para plantar seus sonhos, na esperança de um dia poderem colher os frutos da realização.
O homem não nasce da terra; eis uma constatação óbvia mas, inexplicavelmente, muitas vezes esquecida. Apenas escolhe o chão na qual irá viver, e aí vive. Não se pode falar de posse aqui, mas tão somente de usufruto. O que torna a proibição de que outros homens vivam no local que escolheram para fazê-lo no mínimo absurda, mais comumente criminosa. Que hoje algumas comunidades ou nações vivam em melhores condições que outras é, sem dúvida, uma conquista louvável. Mas que isso lhes dê o direito de escolher quem poderá viver naquela porção do planeta é algo que deve ser questionado. Afinal mesmo as nações mais ricas e desenvolvidas não nasceram da terra, mas a ela chegaram em algum momento de seu passado. Como imigrantes. Com seus hábitos, costumes e tradições diferentes das então existentes. Esquecer-se disso, em qualquer tempo, é algo no mínimo absurdo. No limite, é criminoso.

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