Os mitos nunca morrem

 

Conheci Saul Trumpet no final dos anos 80, início dos anos 90, em seu mitológico Bar do Saul, em Curitiba, frequentado por artistas, intelectuais e por todo e qualquer representante da alta boemia, que nas frias madrugadas daquela cidade após a jornada de trabalho lá iam para ouvir músicos como Saul e outros da melhor qualidade. Em 2011, acompanhado de minhas filhas, Nina Rosa e Mayara, fui ao Restaurante e Galeria de Arte Alberto Massuda. Quando chegamos ao local ouvimos uma música que emanava do porão do restaurante. Logo ao chegar ouvi Mayara dizer para Nina Rosa, não vamos sair tão cedo daqui. Ela sabendo de minha paixão pelo jazz já anteviu o desfecho da noite. A banda que executava clássicos do jazz norte-americano era composta por Saul, evidentemente, no trompete, Fernando Montanari no piano, Gersinho Bientinez no violão e ainda contava com a luxuosa participação da cantora Gisele. Antes de sair falei com Saul, mencionando que era secretário de cultura em União da Vitória e que gostaria muito de levá-los para tocar na minha cidade. Eles vieram, mas antes disso entrei em contato com Gisele, que além de cantora também dava aulas de canto tentando trazê-la para dar aulas aqui em União da Vitória, já que havia um grupo de interessados. A coisa acabou não acontecendo devido a extensa agenda de Gisele. Foi dessa forma que a Fundação de Cultura contratou a soprano Emily Suani, natural de União da Vitória, mas que já na época residia em Curitiba. Logo em seguida vieram Saul Trumpet, Fernando Montanari e Gersinho Bientinez para se apresentar no espaço denominado de Bistrô da Cultura. Eles de forma brilhante executaram memoráveis standards da música norte-americana, entre os quais os mais que clássicos My funny valentine, Body and soul e The man I love. Antes do início do primeiro set eu disse a Saul que gostaria de pedir algumas canções e ele assentiu. Entre meus pedidos estavam, Come rain or come shine, a magnífica What’s new, que na ocasião dediquei a meu grande amigo, Orleans Antunes de Oliveira Filho que lá estava. Também pedi a belíssima canção de Dolores Duran, Ternura antiga, que o trio de forma magistral interpretou. Saul tinha uma ligação meio que umbilical com União da Vitória, já que aqui residiu no final dos anos 50, época em que tocava em casas das chamadas mulheres de vida fácil, cujo ofício, de fácil não tem nada e de onde muitas vezes teve que sair escondido, uma vez, que ainda era menor de idade. Saul infelizmente, nos deixou no dia 1 de novembro, foi um dos maiores trompetistas que ouvi tocar. Como meu grande amigo Sandro Guaraná também tocava com alma e seu fraseado e sua sonoridade remetia aquele que considero o maior trompetista branco da história do jazz, Chet Baker. O homem Saul não está mais entre nós, mas o mito Saul Trumpet é eterno, e, o som do seu instrumento que um dia cortou as geladas noites curitibanas, trazendo-lhes calor, sempre estará entre nós, como assim também o foi naquela distante, mas inesquecível apresentação em União da Vitória.

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