Os trovões soam alto. Calmaria ou mais tempestades?

Estamos a poucas horas da eleição mais importante das últimas décadas no Brasil. De fato, não tenho receio algum de colocar este pleito como muito mais importante que qualquer um ocorrido desde a redemocratização e a promulgação da – cotidianamente desprezada – Constituição de 1988. O que ocorrerá neste fim de semana, é importante deixar claro, não refletirá apenas nos próximos quatro anos de governança deste país, mas refletirá para todo o mundo como anda a sociedade que, há não mais que dez anos, era apontada como uma das mais progressistas e promissoras democracias de todo o mundo. Vivíamos, então, anos de crescimento, de otimismo, de distribuição de renda, de melhoria geral das condições de vida. Há dez anos eram criados os institutos federais, em um dos quais hoje trabalho tendo a oportunidade de trazer, para o interior do Paraná e de Santa Catarina, um pouco do que aprendi na maior e melhor universidade do hemisfério sul. Não se engane o leitor: não fosse esta invenção dos idos de 2008, tanto eu como a maioria de meus colegas jamais teríamos vindo para as cidades gêmeas. Jamais teríamos tido a oportunidade de ser bem recebidos pelos moradores do vale do Iguaçu. Jamais teríamos conhecido as virtudes e dificuldades deste lugar incrível. E jamais teríamos tido a oportunidade de contribuir com o nosso melhor para seu desenvolvimento. Estamos falando de uma política pública bem-sucedida, como deveriam ser todas as que são voltadas para a melhoria da vida da população. É sobre também isso que estaremos tomando decisões centrais no próximo domingo.
O leitor sabe minha posição pessoal acerca destas eleições. Já se vão meses em que estou tornando públicas, nestas linhas, meus receios, temores, desesperanças, incredulidades sobre o que candidatos falam e fazem em seus esforços desesperados para chegar ao poder. Creio não ser necessário repetir aqui que nenhuma das opções que me são oferecidas me parecem dignas de minha confiança e de meu voto, o que me faz tecer intimamente considerações negativas sobre minha efetiva liberdade de decidir o que considero melhor para meus conterrâneos. Claro que, dentre os nomes que surgem, um atrai minha particular repugnância pelas asneiras ditas bem como pelas atitudes suspeitas. Me lembra demais personagens sinistros da história da humanidade. Não que eu pense que ele tenha condições de sequer perto destas monstruosidades; faltar-lhe-iam dotes intelectuais para tanto. Mas a simples lembrança destas faces históricas francamente me causa náuseas, e o apoio conquistado de pessoas que conheço e genuinamente gosto me causa uma vergonha e um mal-estar difíceis de disfarçar.
Entretanto, quando olho para as demais opções me defronto com o representante do grupo político cuja falta de ética e tendências para a corrupção colocaram a mim e a todos os meus compatriotas na situação francamente deprimente na qual nos encontramos. Não que a corrupção seja uma característica exclusiva deste partido – acreditar nisso é o mesmo que esperar Papai Noel na noite de Natal. Mas o caso é que seus representantes subiram ao poder prometendo honestidade, retidão, caráter. A traição a tais valores significou uma traição pessoal contra minha pessoa, já que acreditei em tal canto de sereia. Como um de meus principais defeitos é a dificuldade extrema em perdoar quem me apunhala pelas costas, qualquer representante que se apresente com as cores e símbolos do referido grupo não poderá contar com meu apoio ou voto. Sobram, assim, os demais candidatos, os normais em tempos anormais. São bons? Provavelmente não. São ruins? Certamente não piores que os dois principais contendores. Carregam meu sonho de viver em um país melhor, menos intolerante, mais justo e igualitário em termos de oportunidade? Sem dúvida que não. Mas carregam a esperança de que, ao menos, essa tempestade infindável passe sem maiores danos, e que possamos finalmente pensar, com seriedade e compromisso, qual sociedade queremos e o que estamos dispostos a fazer para termos o direito de viver em um lugar melhor.
Porque, repito uma vez mais, não adianta esperar honestidade dos políticos se não se é honesto no dia a dia. E não digo honesto no sentido de não roubar, não matar nem cometer qualquer crime mais grave. Deixar de fazer isso nos livra de tornarmo-nos bandidos, mas não nos torna honestos. São nas pequenas ações que se reconhece a real tendência do ser humano. Exigir retidão do próximo e não parar o carro para o pedestre atravessar na faixa; não devolver o troco recebido a mais; não cumprir com as obrigações no ambiente de trabalho, e depois acusar os governantes de corrupção apenas pode ter um nome: hipocrisia. E como nosso povo tem sido hipócrita nos últimos anos! Dizer que respeita as mulheres mas votar em um candidato misógino, cujo vice não tem qualquer vergonha em afirmar que filhos criados por mulheres se tornam “alvo fácil” para o tráfico é hipocrisia. Dizer que deseja políticos honestos, mas votar em representante de candidato condenado? Hipocrisia também! Não há meias palavras aqui. Enquanto não encararmos a política como uma extensão direta de nossa própria vida nada vai mudar. Isso é matemático. Que possamos, neste fim de semana, colocar as mãos em nossas consciências e refletir seriamente sobre o que estamos fazendo com o nosso voto e, mais que isso, com nossas atitudes. Se formos capazes de tal exercício de desprendimento, tanto melhor para todos nós. Se falharmos nessa tarefa tão simples quanto importante, certamente teremos de lidar com sérias e negativas consequências em um futuro nada distante. Até a próxima!

 

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