Ousadia, coragem e a origem do meu gosto pela leitura

Escrevi essa crônica em julho de 2010, em homenagem a Maria Daluz Augusto, nossa querida tia Lulu e agora a republico em nova homenagem, desta vez a seu aniversário, 15 de março e ao Dia Internacional da Mulher, pois Lulu é um símbolo da mulher corajosa, independente e à frente de seu tempo, criando o Jornal Caiçara há 60 anos, em uma época em que a grande maioria das mulheres optava por ser apenas dona de casa.
Lulu ousou, contrariou o interesse dos poderosos de plantão e desde então mantém o Jornal Caiçara sob seus auspícios.
Quando conclui minha dissertação de mestrado, dediquei-a ao mestre Isael Pastuch e minha tia Dina Augusto, falecida em 2003.
Na dedicatória eu dizia que à tia Dina devia o gosto pela leitura. Pura verdade, mas eu preciso reparar uma pequena injustiça e creio poder fazê-la nesta crônica. Também devo o gosto pela leitura à Maria Daluz Augusto, minha tia Lulu, que na época da conclusão de meu mestrado figurou nos agradecimentos, ao lado de minha mulher, minhas filhas, minha mãe entre outros que me ajudaram e, sobretudo apoiaram. Mas voltando ao gosto pela leitura, aprendi a ler e a escrever, antes de entrar na escola, ensinado por minha mãe e tias Lulu e Dina, ávido que era, para ler as já então clássicas revistas em quadrinhos do Saci Pererê, criado por Ziraldo e, principalmente, Bolinha e Luluzinha, minhas preferidas na época e que a Tia Lulu havia guardado para eu ler, quando tivesse aprendido. Li e reli, e, guardei para minhas filhas que também as leram e releram infinitas vezes. Tenho estas revistas guardadas até hoje, junto com a maioria dos clássicos da Marvel Comics, como: Homem Aranha, Demolidor, Capitão América, Hulk, Homem de Ferro, Thor, O Quarteto Fantástico e Namor O Príncipe Submrino, que eu comprava no final dos anos 60 e início dos 70, com o dinheiro que ganhava cobrando assinaturas de nosso Jornal Caiçara. Que ontem, 12 de agosto, completou 57 anos, de existência, sempre dirigido por Tia Lulu. Deixei, propositalmente, para esta, emblemática data, que é o aniversário de Caiçara, para nesta crônica, dizer que não só eu, mas minhas filhas, devemos grande parte de nosso gosto pela leitura, à tia Lulu e, provavelmente, também nosso gosto pela arte. Minhas filhas cresceram ouvindo histórias do Bolinha que eu contava para elas dormirem, até que aprenderam a ler e puderam relembrar as histórias que eu contava. Ainda hoje lembramos algumas, em especial, a do Sapo, em que nosso indefectível herói, Bolinha França se vê às voltas com fantasmas e que eu contei infinitas vezes para elas. Nina Rosa era a mais difícil de fazer dormir e ainda nos lembramos, de que uma vez tive que contar essa história que menciono, nove vezes. São histórias, passagens da infância de minhas filhas, muito apegadas à avó Ofir e às tias Lulu e Dina, que se construíram a partir das histórias em quadrinhos que eu havia lido em minha infância. Das histórias em quadrinhos, foi um pulo para os livros, começando a ler pequenos contos de mistérios que encontrava em uma fenomenal coleção de livros de meu avô Dídio e que reunia os mais célebres contos da literatura mundial, como O Corvo, de Edgar Alan Poe. Dos contos de mistério, passei à literatura policial, ingressando no mundo de Hercule Poirot, o seminal detetive criado por Agatha Christie. Como eu não trabalhava, apenas estudava, comprava os livros e discos de que gostava, fazendo as cobranças para o Jornal Caiçara recebendo uma generosa comissão de tia Lulu.
Em 1977, aos 19 anos, comecei a escrever a coluna Câmera 1, em nosso jornal e aqui estou até hoje, já há 33 anos. Comecei escrevendo crítica de cinema, incentivado por Maria Daluz, quando Caiçara tinha apenas 23 anos, era, portanto, quase de minha idade na época. Sou o que Marshall McLuhan chamou de homem tipográfico, muito ligado à escrita e à leitura, o que é, certamente, uma relação atávica, com meu avô e demais familiares, de quem também herdei o gosto pela música, tanto que a exemplo de meus tios René e Lulu, também trabalhei em rádio. No final dos anos 70, e, início dos 90, fui Diretor de Programação da Rádio União. Como o caro leitor pode observar é uma longa relação com livros, revistas e jornais, adquirida com esta, que não é apenas a personagem desta crônica, mas uma das principais personagens de minha vida, Lulu Augusto, que muito mais que uma tia, foi, e, é também um pouco minha mãe e avó de minhas filhas.

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