Padre comunista

Ano XIII – Maio/1967 – Número 160
Habitual: Vamos visitar uma favela. Casas mal feitas a desmoronar. Casas de folhas de flandres e pedaços de papelão. Crianças mal vestidas. Sujeira e lixo por toda parte. Tal miséria confrange o coração. As casas mal se sustentam em pé e dentro delas vivem 8, 9, 10 pessoas. Como vivem? Nascidas em tal miséria as crianças morrem com facilidade. Se combater a miséria e o mau emprego de dinheiro da municipalidade é ser comunista. Frei Clemente é comunista.
Alimentação: O sofrimento dos pobres nos devia cortar o coração. Há famílias que não jantam durante todo o ano e apenas tomam café simples para enganar a fome. Quantas crianças brasileiras nesta terra de fartura, não comem frutas? Enquanto a Saúde Pública recomenda: “beba-se leite, muito leite”, muita criança desconhece o sabor de um copo de leite. Enquanto isso acontece, autoridades municipais constroem monumentos faraônicos, esbanjando duzentos milhões de cruzeiros quando tal importância deveria ser empregada para minorar o sofrimento dos menos favorecidos pela sorte. Se combater o mau emprego do dinheiro público, baseado na Encíclica de Paulo VI é ser comunista, frei Clemente é comunista.
Família: Quantas mães operárias não estarão trabalhando, enfermas, debruçadas sobre o chão, lavando roupas, passando a ferro até altas horas da noite, para sustentar os filhos, uma vez que o magro ganha-pão do marido não chega para a alimentação, para os remédios, para a escola.
Analfabetismo: Há milhões de operários analfabetos que mal sabem desenhar a assinatura. Milhões de crianças se matriculam na primeira série do curso primário, pouquíssimas o terminam. É mais preciso trabalhar pela subsistência, do que estudar. Nas fábricas seus sentidos embotam, perdem a sensibilidade humana. Aprendem a praticar todos os vícios. O trabalho excessivo os deforma. Se lutar por reduzir estas cifras é ser comunista, Frei Clemente é comunista.
Como pode ser comunista, quem crê na moral, na justiça, na verdade, no respeito ao direito alheio, na honra? Como pode ser comunista quem crê na Pátria, na fraternidade humana, na família e no amor? Será que combater o mau emprego das verbas da municipalidade, na construção de monumentos faraônicos é crime? A Encíclica Progresso dos Povos de Paulo VI, prega a mesma coisa e Frei Clemente o faz, baseado na palavras do Papa. Nesse caso, então, o Papa é comunista, quando diz que a terra é de todos e que não pertence a uma pequena parte, quando diz que o sofrimento não espera, quando fala no egoísmo de alguns ricos. Tudo aquilo de bom que o comunismo oferece aos povos, consegue-se sem ele. Outras soluções pregadas por Frei Clemente, como sacerdote, ele prega soluções cristãs, que apresentam vantagens extraordinárias de ordem material e espiritual, que o comunismo, por causa dos seus princípios nunca poderá oferecer. Basta que haja governantes e prefeitos justos que sigam as inspirações da razão e da Igreja. É isso que Frei Clemente prega. O que ele quer é que as autoridades estudem mais diligentemente os ensinamentos da última Encíclica e os traduzam em realidade, então a questão social se normaliza. Frei Clemente quer que haja uma verdadeira inspiração cristã na legislação social. Com ela caminhar-se-á para uma justa difusão da propriedade, para que melhore a situação dos pobres, para a intensificação dos seguros sociais, para o fomento da formação cultural, profissional e moral, do operário. Frei Clemente nunca foi comunista, os que assim o dizem, desconhecem então os princípios da doutrina vermelha. Frei Clemente quer injetar a vida cristã na sociedade para que se reconheça em cada homem um irmão, já que, fora da natural diferença do valor moral de cada um somos exatamente iguais e valemos o mesmo.
Na medida em que se viver o evangelho, construiremos um mundo novo baseado na Justiça e na Caridade.
Eis o que prega Frei Clemente que está sendo muitíssimo mal interpretado por muita gente.

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