Para meu sobrinho ler mais tarde

Quisera guardar-te para sempre em meu coração, acalentar-te com minha ternura, velar teu sono, fazendo de meu peito uma almofada para a tua fronte. E, assim, entre meus braços, mimando-te, vigiando teu despertar, dando-te o abrigo do meu carinho, dizer-te ao ouvido o que sinto. Quisera meu menino, dizer-te que não há inverno na vida, que só há flores, luz, calor e que a felicidade não se desvanece nunca. Que ela existe e é eterna.
Quisera dizer-te menino que a tua bondade terá prêmios, que a morte não chega, que o mal não existe, que o engano é uma fantasia, que o egoísmo é um conto de loucos, que da amargura, da injustiça só falam os desiludidos; que a vida é bela, que tudo é plácido e doce, que não haverá pedras para os teus pezinhos, nem setas envenenadas para a tua alma.
Mas, pretender reter-te em meus braços é fantasia. Agora, tudo ao teu lado sorri e depois de ouvir-me teus olhos contemplariam a vida e compreenderias que estou mentindo, verias e verás com teus próprios olhos, que o amor é fugaz, que as amarguras são uma realidade, que o egoísmo existe em todas as partes e que o ódio destrói todas as bondades. Prefiro então, meu menino, não dizer nada. Velar teu sono, sim, rezar por ti sim, mas em silêncio, e abrir os braços quando despertares. Aprenderás por ti mesmo a viver. Apesar de tudo, a vida não é tão má e pode mesmo ser bela, quando se sabe viver. Quando trazemos Deus em nós, é quando nos diferenciamos dos homens sem Deus, que são vermes da terra. Com Deus no coração, os dias amargos tornar-se-ão em horas de felicidade. Porque o mundo, os prazeres mundanos, nunca deram felicidade a ninguém.
Portanto, meu menino, no dia em que completa dez anos de vida feliz, elevo aos céus meu pensamento e rogo por ti.
Quando eu for apenas uma lembrança no teu espírito, uma sombra no teu coração toma esta página e lê. Lê aqui o contido carinho, a minha dedicação, em pura essência, o perfume que te pude deixar. Que isto ao menos fique de mim. Nós, meu menino, não temos importância. Nada valemos. Mas valem, em nós, os sentimento a que damos vida, aquilo que realizamos e, também, aquilo que fazemos os outros realizar. É isso o que em nós não morre. A nossa sobrevivência, a nossa significação.
Segue meu menino, o caminho que te tracei na incerteza da hora presente e no temor dos dias futuros. Esse caminho que todas as mães desejam coberto de flores e que todas as mães sabem que ficará juncado de espinhos. Só desejo que não arranques com violência os espinhos

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