Para não dizer que só falei de flores: o mito do golpe eterno

Ultimamente não canso de exercitar minha capacidade de estranhamento e minha incapacidade de entender a mentalidade das pessoas. Adoraria dizer que o número daqueles que me confesso incompetente para entender é pequeno; entretanto, este avulta cada vez mais, me obrigando a considerar que o problema reside em mim, e não neles. Ao menos tenho o consolo de saber que grande parte de minhas incompreensões residem, como sempre, no âmbito da política brasileira e de seu suposto “debate”, campo interminável dos raciocínios mais estranhos que jamais vi os quais, apresentados com pontuações de certeza que chegam às raias do fanatismo, acabam arrastando cada vez mais pessoas à crença de histórias tão incríveis quanto possam ser o passeio matinal de duendes e o vôo sincronizado de fadas cintilantes.
Da inocência e competência de Nosferatu já tratei extensamente. Não voltarei ao tema das certezas confirmadas pela incapacidade premeditada de testá-las, já que investigações profundas foram proibidas pelos digníssimos representantes da nação, em conluio com o senhor da traição e do conchavo. Voltarei, hoje, para o outro lado do campo de batalha, aquele cujos membros adoram gritar palavras de ordem simplistas e se mostram cada vez mais avessos à análise detida do que acontece atualmente no país. Para estes senhores da certeza absoluta, vivemos um golpe. A deposição de uma presidente eleita (sim, presidente; do mesmo modo que não existe, até onde sei, “presidenta” e “pacienta”, não vejo porque deva existir “presidenta”) representaria a ruptura da ordem estabelecida, a quebra de regras de convivência social garantidas pela Constituição de 1988, a subversão e o desrespeito completo à vontade da nação expressa nas urnas. Nada menos, portanto, que um golpe.
Já deixei claro aqui várias vezes que não considero positivo o que vem ocorrendo neste país desde 2016. Sim, a deposição da presidente foi um ato vil e detestável de traição, um acontecimento trágico que deixou a desnudo os mecanismos mais reprováveis de funcionamento da máquina política brasileira, exposta que foi como um paciente aberto à espera da cirurgia. Poucas vezes foi possível ver com tanta clareza como pensam os políticos e uma parcela significativa da sociedade brasileira. Poucas vezes foi possível entender com tanta facilidade como funcionam as negociações realizadas no centro do poder nacional. Poucas vezes foi possível sentir tanto asco da política. O problema, contudo, e esse tem sido meu argumento desde então, é que isso tudo aconteceu dentro das regras institucionais vigentes no país. Em respeito à mesma Constituição que seria despedaçada algumas semanas depois. Contou com a aprovação do Congresso, do Supremo Tribunal, do Ministério Público e de tantos outros órgãos republicanos. Não se tratou, portanto, de um golpe. O que deixa tudo muito pior. Porque, assumindo que estivéssemos vivendo o rescaldo de um golpe, fácil seria evitar que outro se repetisse. Bastaria fortalecer as instituições democráticas e velar pela correta aplicação da lei. Nada mais trivial. Muito diferente é a situação quando identificamos que tudo ocorreu dentro da normalidade institucional, de acordo com as regras de funcionamento do Estado. Porque aí se torna necessário reconhecer que o mesmo pode ocorrer novamente a qualquer momento, bastando para isso que um eleito qualquer se recuse a participar do jogo político estabelecido pela maioria corrompida. Evitar a repetição dos atos detestáveis de 2016 implica, então, a necessidade de reconstruir o próprio Estado e repensar profundamente suas próprias instituições. Como o brasileiro é um tanto avesso a tarefas civilizacionais de vulto, melhor dizer que foi golpe. Mais fácil. Mantém o andamento do jogo. E preserva as chances de volta ao poder.
E, aqui, chegamos a 2018, e, à condenação de Lula. Um cidadão brasileiro, sujeito às leis brasileiras, que foi denunciado pelo Ministério Público brasileiro e, na sequência, investigado, julgado duas vezes e condenado em ambas. Trivial. Acontece dezenas de vezes todos os dias em todo o território nacional. Não fosse o futuro detento um ícone da política nacional, e seus seguidores os defensores do mito do eterno golpe acima descrito brevemente. De acordo com esta ideia, vivemos apenas mais um capítulo de uma trama complexa, iniciada com a traição de Nosferatu a seus aliados de véspera. Após serem traídos por deputados, senadores, juízes do Supremo Tribunal, Sérgio Moro e pela Globo, agora foi a vez de três juízes do TRF-4 combinarem abjetamente seus votos para, deste modo, tornarem mais difícil a tarefa da candidatura redentora do Salvador nas eleições que se aproximam. Derrubar Dilma, portanto, foi golpe. Impedir Lula de concorrer à presidência, também! Aí, me desculpem, fica difícil aguentar. Até porque tal interpretação nada convencional é gritada aos quatro ventos com ares revoltados de autoridade ultrajada, como uma sequência “lógica” de acontecimentos nada casuais.
Repito, o que ocorreu em 2016 não foi nada digno de orgulho. Mas ocorreu de acordo com as regras institucionais que, portanto, precisam ser profundamente alteradas. O que irrita enormemente é a recusa daqueles que poderiam exigir esta revisão em fazê-lo, apegando-se, ao invés, na invenção de tramas mirabolantes que “comprovariam” sua imaculada inocência, como se o Partido dos Trabalhadores não tivesse se corrompido quando no poder e nada tivesse a ver com as desgraças representadas pelo “mensalão” e pelo “petrolão”, apenas para citar dois dos escândalos da última década.Como se uma investigação e um julgamento realizados de acordo com as regras jurídicas brasileiras pudessem ser completamente fraudados por vários juízes em sucessão, apenas com o objetivo de condenar um inocente evitando que este salve a nação. Juntamente com este discurso requentado dos tempos em que este grupo era oposição surge, implicitamente, outro: o de sua vitimização contumaz. Tudo foi inventado. Nada existiu. José Dirceu, Vaccari, Palocci e Lula foram, todos, vítimas do capital e de uma elite malvada, ambos escudados pela mídia comprada e vil. Fica difícil escolher entre o conto de fadas de Nosferatu e sua inocência jamais investigada e a história de papai Noel dos petistas inocentes e imaculados. Eis a política nacional deste alvorecer de ano eleitoral.
Até aí, contudo, nada de novo no horizonte. Não é de hoje que os discursos políticos pouco ou nada tem a ver com o mundo real (se é que algum dia tiveram). E o PT, que em 2002 embalou os sonhos da nação apenas para frustrá-los com os primeiros escândalos de corrupção poucos anos depois, mais uma vez confirma que é apenas mais um partido, com políticos do mesmo naipe de todos os outros. Apenas com um discurso mais barroco, pois barroca é a tarefa de vitimizar-se depois de todo o ocorrido. A única questão que fica: se a política nacional é tão podre; se o Congresso é tão vil; se o Supremo Tribunal é tão mafioso; se o Judiciário é tão maniqueísta a ponto de fazer o que fizeram, segundo os petistas, para prejudicá-los… porque este grupo se esforça tanto para seguir jogando o jogo em sua sanha desatada para voltar ao poder? Se está tudo tão carcumido, me parece que a única solução, na lógica deste discurso, é começar do zero, e não seguir tentando compor de acordo com as mesmas regras e as mesmas lógicas. Notável contradição, que a estridente militância, obviamente, não se empenha minimamente em expor. E entre Nosferatus, moluscos e malucos, nos aproximamos de mais uma eleição. Complicado… Até a próxima!

 

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