Pelo centenário de Porto União: nossas línguas de imigração

Firmado o Acordo de Limites entre os Estados do Paraná e Santa Catarina, em 1917 nasceu o município de Porto União, no local anteriormente chamado de Porto da União e de Porto União da Vitória. Este ano comemoramos seu primeiro centenário.
Os primeiros colonos de origem europeia, em sua maioria alemães, chegaram a partir de 1886, seguidos por poloneses, ucranianos, russos e libaneses. Esse período, até 1930, corresponde ao grande movimento imigratório no Brasil. Como no restante do Brasil, a representação dos imigrantes, juntamente com os indígenas, os africanos, e os colonizadores portugueses, tem um lugar significativo como parte da constituição do povo de Porto União e de União da Vitória.
A língua portuguesa era e continua sendo a língua oficial do país, e é também a língua materna da maioria dos brasileiros. Os imigrantes, porém, trouxeram consigo outras línguas maternas, constituintes de suas identidades, com as quais se estabeleceram e formaram comunidades. Para eles, o português tornou-se uma língua estrangeira, ou uma segunda língua, que aprenderam sem abandonar suas próprias histórias e ideologias; o português, para os imigrantes, era a língua dos outros, dos diferentes, dos “caboclos”. A preservação da religião e da cultura garantiu aos imigrantes, por muitos anos, também a preservação das suas línguas, enquanto aprendiam o português, muitas vezes com dificuldade. Até hoje, em Porto União, as celebrações religiosas na língua ucraniana, por exemplo, são uma escola da língua, e representam uma necessidade à vida do grupo. E essa relação histórica densa, na dinâmica dos contatos linguísticos, interferiu na constituição das pessoas e de suas identidades.
Durante a Campanha de Nacionalização do Ensino promovida por Nereu Ramos em Santa Catarina, na década de 1930, devido a uma visão monolíngue, Porto União foi um dos diversos municípios que tiveram escolas fechadas, por não terem tempo suficiente para se adequarem às novas normas que privilegiavam a língua nacional. Nossa Escola Alemã, que funcionava onde hoje se encontra a Secretaria Municipal de Educação, teve seu percurso interrompido por conta de políticas linguísticas nacionalistas. O desmanche da diversidade linguística levou a uma perda considerável, mas essas medidas não conseguiram apagar totalmente as línguas estrangeiras. Além disso, as variedades das línguas de imigração misturaram-se ao português, de modo que a população fala o português com traços das outras línguas presentes na fonologia, no léxico e na prática mesclada das línguas, com fragmentos de provérbios e expressões dessas outras línguas no português. Atualmente, assistimos a um certo revigoramento dos elementos relativos à memória dos imigrantes, que se pode observar, por exemplo, no sucesso das festas municipais, das Etnias e do Steinhaeger e do Xixo; ou a criação do Núcleo de Artesãos de Pêssanka pela comunidade ucraniana.
A evolução dos contatos linguísticos em nossa região pode ser reconstituída, em geral, em três estágios principais: O primeiro estágio corresponde à chegada dos imigrantes, que provavelmente falavam apenas suas próprias línguas maternas, desconhecendo as línguas faladas por outros grupos étnicos e a língua nacional; o segundo estágio estabeleceu-se com a necessidade de se comunicar com membros de outros grupos étnicos e de dirigir-se a instituições que operavam em língua portuguesa, promovendo o bilinguismo social; e o terceiro estágio é caracterizado pelo quadro atual, em que o uso da língua de herança encontra-se em fase de extinção entre as gerações mais novas.
A relação entre língua e identidade étnica, no entanto, parece ser muito estreita. No caso dos porto-unionenses, muitos declaram-se pertencentes a um determinado grupo étnico, referindo-se a si mesmos como italianos ou poloneses, por exemplo, embora já sejam brasileiros de segunda ou terceira geração. Mesmo tendo nascido brasileiros, assumem que têm costumes diferentes dos pertencentes a outros grupos étnicos.
Nas escolas, os esforços e incentivos para que sejam mantidas as línguas de imigraçãosão, infelizmente, escassos; o português brasileiro predomina, e cada vez menos as crianças falam as línguas de imigração no âmbito familiar. As línguas de imigração são muitas vezes ainda consideradas “línguas dos colonos”, e representam um grupo reduzido. Como língua e cultura constituem uma à outra, o desuso de uma pode levar ao fim da outra.
Os porto-unionenses comemoram o marco de cem anos de uma história na qual os imigrantes possuem papel principal, não secundário. Muito se aprendeu e discutiu sobre políticas linguísticas após o período da nacionalização da Era Vargas; a imposição do monolinguismo e o consequente sufocamento das línguas ditas minoritárias são características de governos autoritários. Não é preciso temer o multilinguismo, visto que ele apresenta diversas vantagens individuais e sociais. Ainda há a possibilidade de cuidar e valorizar o que nos resta do tesouro que as línguas de imigração representam para Porto União

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