Por entre as ruínas da esperança, dançam os embriagados

Acabou. Eis uma palavra tão simples quanto misteriosa. “Acabou”. Com ela um misto de sentimentos emerge do íntimo do ser pasmo que não mais sabe o que dizer e o que escrever. “Acabou”. Signo do fim das lutas, das pugnas, das ansiedades, das surpresas. Reflexo do aquietamento do campo de batalha, do esgotamento dos troféus, do fim dos debates, do encerramento do espetáculo brutal da disputa pelo futuro. “Acabou”. Palavra ainda mais lúgubre quando acompanhada de outra: “silêncio”. Não que esta ausência de som seja real. Por sobre os que permanecem inertes, absortos em sua própria descrença com relação ao que se passa diante de seus olhos, cantam e dançam aqueles que, ignorantes do que acabam de fazer, aproveitam a embriaguez da vitória mal compreendida, porque alcançada após lutas mal interpretadas. O “silêncio”, companheiro fiel do “acabou”, assombra nos momentos de completa catarse fúnebre a alma daqueles que sabem ter fenecido toda e qualquer esperança. Pobre vítima do conluio imoral do “acabou” com o “silêncio”, eis que “esperança” se retira, incapaz de olhar para trás, envergonhada das promessas feitas, porém não cumpridas. Onde “acabou” e “silêncio” reinam, não há espaço para a presença de “esperança”. Apenas para cantores e dançarinos embriagados no fel da vitória que levará à sua própria destruição.
Imóvel, olhos fixos em um horizonte que insiste em anunciar, com suas pesadas nuvens, a tempestade que se aproxima, eis que o estudioso da trajetória humana sobre o planeta e, mais especificamente, sobre os atos praticados pelos ingratos filhos da civilização na Terra de Santa Cruz reconhece, no choque da concretização material do impensável, um sinal positivo. É chegado o tempo do fim da “hipocrisia à brasileira”. O fim do mito do povo que recebe bem as diferenças. Da nação abençoada que abraça e auxilia a todos, fraternidade como lema, solidariedade como destinação última. Da nação cristã que a todos ama e para todos deseja o bem. Não que estas historietas tenham desaparecido por completo ou, mesmo, deixarão de ser repetidas à exaustão no futuro imediato. Elas ainda rondarão nossas mentes, confundindo a todos aqueles incapazes da menor crítica e do mais básico raciocínio. Mas qualquer um que, doravante, se lembrar de que este povo abençoado por Deus – que, diga-se de passagem, é seu conterrâneo nas palavras de um conhecido ditado popular – elegeu para governá-lo a um racista, misógino, homofóbico, defensor de torturadores e admirador da ditadura, terá instrumentos cognitivos suficientes para criticar, nos mais ácidos termos, falácias tão pueris quanto pueril é o comportamento político de nossos concidadãos.
Não canso nem cansarei de repetir. O grupo mais próximo àquele que governará o país pelos próximos quatro anos é formado por um filho que afirma, diante de uma câmera (símbolo máximo de seu sentimento inatacável de impunidade) que “basta um soldado e um cabo para fechar o Supremo Tribunal Federal”; um vice que afirma que “o povo brasileiro é oriundo da indolência do indígena, da malandragem do africano e do privilégio do branco”, entre outras barbaridades. O futuro líder da nação conseguiu afirmar, sem corar de vergonha, que os africanos se ofereceram voluntariamente para trabalhar como escravos em terras lusitanas. É difícil não sentir vergonha diante de tais rememorações. Não por aqueles que proferiram tais sandices, pois todos temos o pleno direito de acreditar nos absurdos que quisermos. Mas sim por aqueles que, ao dirigirem seu voto a tal classe de seres humanos a eles se equipararam. Porque, que me desculpem quem ainda quer convencer o mundo e, talvez, a si mesmos do contrário, mas quem vota em racista, racista é. Quem elege como governante a um misógino, pela misoginia sente atração. Quem comemora a vitória eleitoral de um homofóbico, possui a homofobia como motor de seus atos.
Não se trata de uma questão política, mas de decência humana. De representação. De acordo com uma das definições presentes no dicionário: “ideia que concebemos do mundo ou de uma coisa”. Nosso sistema é definido como o de uma república democrática representativa. O que significa, muito simplesmente, que os governantes representam os governados. Ou seja, compartilham com eles as mesmas concepções de mundo. Com as eleições de 2018, não restam mais máscaras a serem retiradas. Não há mais viabilidade na sobrevivência da “hipocrisia à brasileira”. A partir do próximo ano, bastará olhar para o representante máximo da nação para termos o reflexo exato desta mesma nação. “Cada povo tem o governo que merece”, outro conhecido adágio popular, também ilustra bem a situação. O Brasil está e será, ao menos, mais autêntico. “Acabou”. Palavra que se aplica a tantas coisas, em tantas situações. Mas que, presentemente, nunca vem desacompanhada do seu respectivo “silêncio”. Um minuto basta. Para rememorarmos os sonhos de igualdade desfeitos. Para lamentarmos a sociedade mais justa que não mais será. Para nos despedirmos da esperança que foge, envergonhada e amedrontada. Um minuto de silêncio por nós. Por nosso país. Um minuto longo, mas que nada será perto dos quatro anos que se aproximam. Um minuto doído. Um minuto sofrido. Um minuto eterno. Feliz “era nova” a todos os que dançam, embriagados, ao som do lancinante silêncio que nos assombra e nos emudece. Porque, neste momento, tudo que resta para ser dito pode ser resumido em uma única palavra: acabou. Até a próxima!

 

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