PRECISAMOS FALAR SOBRE ORANGE IS THE NEW BLACK

*** esse artigo contém spoilers da final da temporada anterior e da quinta temporada.
Se você anda em atraso com seus seriados da Netflix não leia essa matéria. Se você deixou passar a quarta temporada de OITNB não leia nem o primeiro parágrafo. A quarta temporada terminou num gigantesco cliffhanger ocasionado por eventos extremos e no parágrafo a seguir tudo isso será discutido. Ok. Vocês foram avisados.

No penúltimo episódio da temporada passada uma das personagens favoritas dos fãs foi assassinada por um dos guardas daquele inferno em forma de presídio feminino chamado Litchfield. Não só a morte de Poussey foi um choque por seu status de um dos melhores personagens, mas também por ela ser uma mulher negra e homossexual. A criadora da série, Jenji Kohan, justificou a narrativa dizendo que o assassinato serviria para gerar consciência acerca do movimento Black Lives Matter (vidas negras importam), que trata diretamente dos assassinatos de jovens negros pela polícia branca nos EUA. Poderia ser louvável. Mas a personagem era lésbica, além de negra. Em uma temporada tão catastrófica como a temporada de televisão de 2015/2016 (mais de 20 personagens lésbicas ou bissexuais mortas em programas de televisão) é inaceitável que numa série tão inclusiva, uma espécie de porto seguro da representação, isso aconteça. É possível entender o raciocínio. Mas ele soava ineficaz. Matar uma personagem negra e lésbica, uma das personagens com que as pessoas mais se identificam, para que pessoas brancas de repente ganhem consciência política e entendam o movimento negro como algo legítimo? Bem, só uma pessoa branca pensaria assim.

Mas isso foi ano passado. Foi um golpe duro que tivemos que suportar, entretanto foi algo em que eu pessoalmente tinha algum tipo de esperança. Eu pensava que a série iria se redimir de algum modo. Que aquela morte não seria em vão. Ainda mais depois de uma temporada beirando o torture porn, em que cada uma das personagens foi torturada, estuprada, retirada do convívio social, aviltada por um bando de guardas sem preparo liderados por um sádico gay. Ainda assim, com tudo isso, OITNB é uma série importante, que levanta conversas importantes, é uma série com representação feminina, negra e LGBTQ, é uma série com uma excelente narrativa acima de tudo. Então vamos lá, dou uma chance.

A quinta temporada começa tensa, resolve o cliffhanger da temporada anterior e as detentas iniciam uma rebelião, com Dayanara armada e dando um tiro na perna do guardinha mais imbecil, preconceituoso e babaca de todos os tempos. Foi legal. Toda a agonia do Humps é incrível, porque ele é o tipo de personagem feito pra você torcer contra. Ele é o grande vilão, junto com Piscatela, da temporada anterior. Então o sofrimento vem como catarse e há uma torcida imensa pra que ele não escape dessa com vida – coisa que acontece mesmo, depois de uma sequência de cenas retiradas do filme Um Morto Muito Louco. O fato de um grande vilão ser retratado de maneira tão ridícula é excelente. O que não é excelente é a tentativa incansável da narrativa de tentar humanizar e fazer com que a audiência tenha pena do guardinha Bailey, que por ser um banana mal treinado, acabou assassinando a Poussey na temporada anterior. O Bailey não é um sujeito ruim, nunca foi mostrado dessa forma, e tudo bem, deixa a aleatoriedade da morte ainda mais trágica. O problema é que ele deveria ter sido deixado de lado. Não me interessa saber se ele está bem ou não. Não me interessa se ele se sente culpado. A narrativa não evolui em nada acompanhando a história do algoz. A narrativa evolui quando entendemos os sentimentos da Taystee com relação a morte de Poussey, os sentimentos da Soso, os sentimentos das outras detentas. E não por causa de um homem branco, que nunca jamais deveria ser o centro narrativo dessa série, nem que por apenas um episódio.

Outro grande problema da série, desde os primeiros episódios é o sadismo das latinas, a tortura aos guardas, e o ganho de consciência da Alex – outra personagem branca ditando moral e ética. A conversa é longa e vamos continuá-la na próxima semana. Porque é necessário entender que Orange is the New Black vem pisando na bola há algum tempo. E quando uma série é importante assim, quando uma série é seminal, fica mais difícil de engolir. Vamos continuar discutindo o racismo, produto da falta de representatividade (faltam roteiristas negras e latinas nessa sala). E vamos falar sobre como romancear estupro em 13 episódios. Sobre construir narrativas completamente desimportantes com flashbacks e focar numa história de amor (entre pessoas brancas, é claro) no final da temporada quando o mundo está acabando.

Com tudo isso, OITNB merece estar na pauta, vale a discussão. E precisa ser assistida, porque mesmo do lado errado, ela levanta conversas importantes, que precisamos ter.

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