Primaverar é fazer o bolor virar flor

“Eu já janeirei, feverei, até agostei com todos os ventos que eles trouxeram. Agora vou setembrar, de preferência primaverando, que é pra desabrochar o que plantei no restante dos meses.”

No texto acima, atribuído a Ita Portugal, escritora e pedagoga maranhense, utiliza-se a licença poética para conjugar substantivos como se esses fossem verbos. Aproximando-se a primavera, que no hemisfério sul inicia-se este mês, queremos deixar para trás os ventos frios para nos esquentarmos no calor do sol e, como as flores, desabrochar.
Não trataremos hoje, porém, da licença poética, mas das estações do ano, e de como elas receberam os seus nomes, a partir do Latim. Consideravam-se, inicialmente, apenas duas estações: Veris, que significa “bom tempo” e originou a palavra “verão”, e hibernus tempus, ou hiems, significando “mau tempo” ou “tempo de hibernar”, o inverno. Com o tempo, o período chamado ver foi subdivididoem três partes: 1- o primo vere, princípio da boa estação, que tornou-se mais tarde “prima vera”; 2- o veranum tempus; e 3- o aestivum, a última parte do ver, de onde surgiu a palavra portuguesa “estio”, ou “idade madura”. A estação do mau tempo, hiems, por sua vez, subdividiu-se em dois períodos: 1- o tempus autumnus, ou “tempo do ocaso (queda ou declínio)”, correspondente ao nosso outono; e 2- o tempus hibernus, que é o inverno.
Até o século XVI, a Espanha adotava esse sistema de cinco estações, conforme vemos no Diccionário Etimológico de La Lengua Castellana, escrito por Juan Corominas. E a partir do século XVII, então, disseminou-se o sistema de quatro estações, que utilizamos atualmente, a fim de que se pudesse dividir o ano em quatro partes iguais. Esta divisão é demarcada pelos dois equinócios (primavera e outono), quando o Sol passa pelo plano do equador, e pelos dois solstícios, quando o Sol se encontra mais afastado do equador (inverno e verão). “Equinócio”, em latim, quer dizer “noites iguais” e refere-se aos períodos em que os dias e as noites têm igual duração. Já “solstício”, também do latim, significa “sol parado”; nesse dia há um aumento da temperatura porque o Sol fica numa posição que permite que seus raios atinjam a Terra de forma mais incisiva.
A ideia tão arraigada e simplificada entre nós de que o ano se divide em quatro estações, como se isso fosse um fato geográfico, deixa-se desfazer facilmente com alguma pesquisa. Tomarei inicialmente o caso da língua alemã, que para o período da primavera tem as palavras Frühling, Lenze também Frühjahr. Pode-se entender a escolha dos termos como resultado da variação linguística, conforme a região em que se encontra. Mas além disso existe uma importante diferenciação: Frühlinge Lenz denominam o período todo, no hemisfério norte, entre 21 de março e 21 de junho. E o termo Frühjahr denomina uma pequena fração do início deste, quando as folhas das árvores de folhas caducas, que haviam caído todas no outono passado, começam a brotar e pintam tudo de um verde muito claro que, ao longo da estação, vai escurecendo. Frühjahr, no mundo dos negócios, também denomina o início da estação das vendas, e é ele que batiza, no mundo da moda, a coleção desse período, que é lançada quando ainda persiste aquele último friozinho do inverno.
Na China, tradicionalmente, divide-se o ano em cinco ciclos que correspondem a cinco elementos primordiais, que perpassam outros aspectos da cultura chinesa: A primavera, quando tudo se inicia, equivale à madeira; o verão, associado ao coração e à alegria, ao fogo; o final do verão à terra; o outono, tempo de paz, ao metal; e o inverno, momento de reflexão, à água.
Alguns vocábulos são derivados dos nomes que damos às estações, como “primaveril” de primavera e “veranear” de verão. Não tão comuns são, por exemplo, “vernal”, relativo à primavera, “hiemal”, que designa um organismo que prospera no inverno, e “hiemífugo”, animal que migra no inverno. No arquipélago dos Açores, “inverna-se” ao descer com o gado às planícies para que nelas passe o período do inverno, longe da altitude e das inclemências do frio. No sul do Brasil guarda-se o gado nesse período em locais chamados “invernadas”, pastos que foram reservados para o seu pernoite. Mas chamam-se “invernadas” também os grupos de dança típicos.
Voltamos, finalmente, à poesia, para então, após “invernar” (ou hibernar), “primaverar”. Ser flor após semente; luz e cor para deixar para trás a escuridão e o frio. Nascer e brincar. Ao “veranear”, depois de um tempo, o calor maior transforma a vida em magia; é a festa, são as férias da juventude. “Outonar” pode ser mais difícil fisicamente, mas traz muita reflexão e amadurecimento. Por fim, que tenhamos serenidade para “invernar”, em meio à névoa, com passos lentos, nas lembranças do ano que passou.

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