Projeções distorcidas

 

União da Vitória, outubro de 2015. Na região da ponte de ferro que, ao longo de décadas, foi ferroviária mas hoje serve de passagem de automóveis e pedestres, jaz outro monumento histórico tão ou mais importante que a imponente obra de engenharia que serve de cartão postal para as cidades gêmeas. Esquecido, deserto, quase envergonhado de sua própria sobrevivência ao tempo e ao descaso, permanece protegido por alambrados e portões, sua localização apenas indicada por um monumento de concreto adornado por bonita placa de metal, ela também – talvez em respeito à sorte do lugar que homenageia – escondida atrás de seu próprio gradil. “Proteção contra os vândalos”, a justificativa. Incentivo ao esquecimento, a consequência prática de tanta proteção.
De fato, o local evoca paz e tranquilidade. Na rua que lhe dá acesso, sintomaticamente batizada “rua Particular” no popular serviço de mapas do Google, poucos carros passam, poucas pessoas caminham, poucas vozes se escutam. Até porque as pessoas que se dignam a ocupar tal espaço público (afinal se trata de um espaço público, ao contrário do que parece querer nos convencer o conhecido serviço de buscas da internet) o fazem discretamente, em conversas feitas para serem ouvidas apenas pelo interlocutor mais próximo, nelas diretamente interessado. Em plena luz do dia, enquanto as cidades fervilham e seus habitantes trabalham, é possível afirmar que, talvez, poucos lugares do perímetro urbano estejam tão longe da ideia de agitação quanto esta pequena área tão bem localizada entre o movimentado centro comercial e o caudaloso rio Iguaçu.
Trata-se de uma tranquilidade surpreendente. Como surpreendentes são tantos e tão variados fatos desta cidade. Afinal, como imaginar que o famoso vau do rio Iguaçu, por onde inúmeras pessoas, mercadorias e animais passaram ao longo de mais de um século, buscado com tanto afinco no início do oitocentos e tão comemorado quando de sua descoberta, em 1842, grande responsável pelo abastecimento de algumas das principais capitais do país ao longo de longo período, poderia estar escondido em uma área tão erma quanto bem localizada, tão conhecida quanto pouco visitada, tão importante para tantas pessoas e durante tanto tempo mas que, atualmente, foi convertida em “rua particular” sem que seus pretensos proprietários tivessem sido sequer informados disso?
Sem dúvida tantos paradoxos são difíceis de entender. Principalmente para alguém que vem de fora e que, durante boas duas semanas, buscou pelo lendário vau, passou diante dele em algumas oportunidades apenas para se dar conta de que, como tantos outros símbolos históricos importantes para a compreensão de nosso país, este se tornou apenas mais um monumento ao esquecimento, ao descaso com que todos nós, enquanto nação, tratamos nossa trajetória e as lições que pretensamente deveríamos ter aprendido enquanto caminhávamos para chegar até onde estamos.
Entretanto, o vau resiste. Sobrevive. Por vezes é até mesmo lembrado. Nada mais natural. Afinal não é fácil enterrar semelhante gigante da história de nossa região sul e, mais ainda, de nosso país. No silêncio do presente, ecoam as vozes do passado. Na tranquilidade da “rua particular” agitam os passos apressados de homens e animais em demanda de regiões distantes. Nas conversas discretas dos moradores, reflete-se o comércio incessante, as trocas numerosas e variadas que fizeram desta uma região cobiçada, deste povoado uma vila e, posteriormente, uma importante cidade. No vau, a história paira sobre as cabeças dos que passam: solene, inevitável, grandiosa. De particular, apenas o encantamento dos que conhecem seu passado. Nas próximas semanas, algumas histórias deste ponto tão importante de nossa cidade. Porque a história de todos nós nos acompanha sempre, como uma projeção incessante que nos mostra os caminhos formados com nossos passos, e a direção que será buscada com nossos projetos e intenções.

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