Qualquer desatenção pode ser a gota d’água

Em minha crônica anterior mencionei alguns bairros, ruas e locais que visitei a alguns dias em São Paulo. A melhor maneira de conhecer uma cidade é andando a pé e é claro que também com roteiros prévios. Foi assim que estive, por exemplo, no Bar do Goés, na Barra Funda. O bar, um clássico expoente dos mitológicos pés sujos, fica bem próximo do apartamento de Nina Rosa, que o frequenta habitualmente e lá me levou. O cardápio contem desde comidinhas veganas até clássicos como omeletes, sanduíches e porções. Fui ao Bar do Goés em minha primeira noite em São Paulo e no sábado fomos passear em Pinheiros, com direito a uma visita a feira da Praça Benedito Calixto. Reservamos a noite para irmos ao Centro Cultural Itaú, para assistir a peça Gota D’ Água Preta, montagem dirigida por Jé Oliveira, que também atua, fazendo o papel de Jasão. Também está no elenco a excelente cantora Juçara Marçal, uma das mais belas vozes da nova MPB. O texto é de autoria de Chico Buarque e Paulo Pontes e foi escrito em1975, só sendo liberado após inúmeros cortes impostos pela censura da ditadura militar. Mesmo cortada a peça conquistou público e crítica ganhando o Prêmio Molliere, que foi recusado pelos autores, em solidariedade a proibição pela censura das peças Abajur Lilás, de Plínio Marcos e Rasga Coração, de Oduvaldo Viana Filho. Na montagem original a personagem Joana foi vivida pela grande Bibi Ferreira, homenageada agora em Gota D’ Água Preta, que toca um trecho da emblemática canção em interpretação de Bibi, que é ovacionada.
A montagem de Jé Oliveira é densa, fiel ao original e nos deixa com seu final trágico com o gosto amargo de derrota, do fracasso de uma sociedade capitalista fincada em imensas desigualdades sociais.
Ao final a trupe é ovacionada por vários minutos. Após os aplausos o diretor, Jé Oliveira, pede um minuto de silêncio em homenagem às vítimas de Brumadinho e a memória de Marielly Franco, morta há quase um ano e cujos assassinos permanecem impunes. Mais uma enxurrada de aplausos. Antes da peça estivemos em uma das salas de exposição daquele Centro Cultural, apreciando a bela e sensível exposição do poeta mato-grossense, Manoel de Barros, intitulada, Ocupação. A exposição continha originais do poeta, livros, vídeos e áudios além de ilustrações feitas por sua filha.
No domingo eu e Nina estivemos no Instituto Moreira Salles para ver a exposição Millôr: Obra Gráfica, de autoria de um dos mais brilhantes artistas gráficos e intelectuais brasileiros, Millôr Fernandes. Millôr nos mostra sua visão desencantada do Brasil e mergulha, em sua fase mais filosófica, nos meandros da alma humana. Crítico feroz da ditadura militar e dos políticos a ela subservientes, a obra de Millôr não envelhece, e está cada vez mais viva nestes sombrios dias.
Saindo da exposição nos deparamos, já no andar térreo do IMS, com uma apresentação da formidável Jurufrevo Orquestra. Com um repertório que mistura jazz, frevo e marchinhas carnavalescas, parte do público não resistindo aos entusiasmantes acordes da orquestra, caiu na dança. Apenas espetacular.
Durante a semana fomos passear no Centro Histórico da cidade, antes de irmos ao Centro Cultural Banco do Brasil para ver a exposição do grande mestre Paul Klee. A exposição intitulada Equilíbrio Instável, se dividiu por quatro andares do CCBB, apresentando desde os primeiros esboços de Klee ainda em Berna, sua cidade natal, o período que viveu na Alemanha, país que é obrigado a deixar após a ascensão do nazismo, voltando a Berna onde morreria aos 60 anos.
São Paulo é isso, com programas culturais para todos os gostos e para todo e qualquer tipo de bolso. São Paulo é outro mundo.

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