Que problema! (III/III)

Continuando essa reflexão em três tempos, anteriormente falamos do “…Amarildo, um dos líderes e Nelso Feio ajeitavam as barracas, reforçando as amarras; dois rapazes traziam lenha e alimentavam uma fogueira, enquanto outros enchiam as barricas com água do riacho. Mulheres estendiam roupas e cobertas em um varal improvisado entre árvores. O lugar estava movimentado. Não se via ninguém parado”.
(…continuação)
Toninho diz ter outro pedaço de terra, outra propriedade até um pouco maior e mais bem cuidada, próxima dali, essa sim, de sua única e exclusiva posse. Nada tem a ver com as terras da mãe, coitadinha tão fraca e já enfrentando também um começo de depressão, vivendo abaixo de remédios e rezas. Que ele, Toninho, atualmente é um empresário da cidade e não do campo, que cuida de uma indústria e um comércio em Pato Branco e essa terra poderia sim ser utilizada para a reforma agrária. Que esse chão era perto dali, apenas a alguns quilômetros, em Palmas e que também possuía algumas boas benfeitorias, mas atualmente ele reconhecia, estava totalmente improdutiva e praticamente abandonada.
Nisso, metade do pessoal acampado acompanhava o diálogo, atento e em silêncio. Amarildo e Nelso Feio se entre olharam. Um gavião lá no alto, como que para quebrar aquele momento de silêncio absoluto, piou. E piou de novo. Toninho olhou pra cima e pensou: – isso é um sinal. Um bom sinal. Diz a lenda que dois pios seguidos de um gavião é um sim. Se ele piar de novo, saco o 38 e dou-lhe um tiro no meio dos cornos. Lembrou-se que estava sem arma. Nem precisou, pois o gavião se calou e voou para longe. Melhor para os dois.
Vendo que o silêncio se prolongou por demais, Toninho resolveu dar a cartada final. Falou em alto e bom som para que todos pudessem ouvir: – Nêgo, vai até a casa grande, manda o Rudi, o Fagundes e o Sêo Augusto carnear uma novilha, um porco e duas ovelhas. Vamos fazer um grande churrasco. Depois, que eles preparem o Mercedão e venham ajudar o pessoal desmontar o acampamento; vamos carregar, levar pra Palmas e ajudar a montar de novo. Lá vai ser bem melhor para eles e minha querida mãezinha nem precisa ficar sabendo o que se passou. Se precisar mais lona, manda buscar no Mercado do Almeida. Pode trazer um rolo de corda também e umas grades de cerveja. Ah, não esqueça a gasosa pra piazada! Gritos e vivas se fizeram ouvir por todo o acampamento. Amarildo confabulou um particular com Nelso Feio e aceitaram a proposta de Toninho, afinal se era pra facilitar a vida de todos, que assim fosse.
Final da tarde, início da noite, acampamento montado na vizinha Palmas. Lugar bonito, amplo, muito bom e fácil para demarcar os lotes das famílias pensou Amarildo, olhando tudo do alto de um pequeno morro. Pessoa muito boa esse Sêo Toninho, se pegou pensando Nelso Feio abraçado em sua patroa, com os filhos ao redor. Esses sim, bonitos.
Dia seguinte bem cedinho Toninho liga o rádio como de costume na Celinauta e o locutor Zé Carlos Wolker transmite a manchete do dia: “Terras pertencentes à Cúria Diocesana de Palmas são invadidas por famílias ligadas a reforma agrária. Mais de 100 integrantes do movimento montam acampamento na propriedade da Igreja e se recusam a sair. O Exército foi chamado. O Bispo não quis se pronunciar”.
Toninho esboça um leve sorriso, sentado na cadeira de balanço dá uma tragada no palheiro, joga o corpo pra trás, solta a fumaça de forma generosa e se espreguiça, falando sozinho: – que problema Sêo Bispo, que problema!
(fim…)

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