Que problema! (I/III)

Final dos anos 70, período ainda conturbado da di-tadura militar, timidamente a luta pela terra volta a tomar corpo. Invasões isoladas, geograficamente esparsas, são executadas por grupos ainda em formação, sem muita bagagem, sem nenhuma malícia. Grupos compostos apenas por necessitados inconformados com o “loteamento” realizado pelos donos do poder e afortunados, ao dividirem as glebas por esse país adentro.
No Sudoeste do Paraná não foi diferente. Terra coberta ainda por muita madeira reserva indígena, lavouras sendo formadas, soja, milho e trigo em plantações ano a ano avançando. Cooperativas sendo criadas e fortalecidas. Recente ainda a lembrança da Revolta dos Posseiros no final dos anos 50.
O poder, influência e domínio do clero ainda bastante saliente. Discreto como sempre, mas poderoso. Como sempre. Bispado em Palmas, grandes latifúndios, campos cobertos de gado. Cancha reta de Clevelândia freqüentada pelo Faggion de Pato Branco, Bonatto, Gugelmin, Massignan e tantos outros. Em final de semana com páreos, todo o sudoeste se fazia presente. Até carreira com cavalos argentinos por lá aconteciam. Um deles, ao passar a fita de chegada – claro que em primeiro lugar – caiu morto, durinho, durinho. Olhos abertos, brilhantes e esbu-galhados. Sequer um suspiro deu. Apostas devidamente anu-ladas e os argen-tinos depois de um belo corretivo saíram de fininho. Quem conta é o Professor Barreta, lá do Colégio Agrícola.
Toninho, chamado cari-nhosamente também como “Amaldiçoado” por assim saudar os amigos, empresário, madeireiro, criador de gado e agricultor, residência em Pato Branco e com terras no interior de Mangueirinha, aos poucos ia abrindo suas lavouras. Pescador dos bons, caçador de codorna, contador de boas, engraçadas e dizem verdadeiras histórias. Bom papo, grande amigo e companheiro. Figura agradável.
Noite fria chuva típica de inverno, fina e constante. Toninho e sua turma ao redor do fogão a lenha que esquentava o ambiente enquanto na chapa o pinhão era assado, servindo ao mesmo tempo para esquentar as mãos, era colocado ao chão de pedra e martelado para facilitar o descasque. Pinhão novo, colhido ainda recém por peão acostumado a subir no pinheiro com uma correia na cintura e ganchos nos pés. Dava gosto ver a agilidade do moleque. Todos se fartando de chimarrão e quentão com gemada. Alguns davam goles numa branquinha pura, de fabricação própria do pequeno canavial que servia pra marcar os limites da propriedade.
Causos eram contados por alguns, enquanto outros atentos e encantados se deliciavam com algumas histórias e dizem muitas estórias. De repente, Nêgo adentra a cozinha, ofegante e desanda a falar: Sêo Antonio as terras foram invadidas! Tem pra mais de 20 barracas e pelo menos umas 100 pessoas acampadas perto do riacho, no descam-pado do bosque! Foi um burburinho só. Todos falando ao mesmo tempo. Cadeiras e bancos com um solavanco afastados, chapéus sendo ajeitados às pressas. Toninho, calmo, nem se mexeu. Só ergueu a cabeça, olhou firme pra todos, que imediatamente se aquietaram e falou: – amanhã cedo a gente desce e conversa com esse pessoal. Vamos continuar a prosa que está boa e cuidar pro pinhão não queimar. Fagundes põe mais lenha seca no fogão!
Cedo os peões arrumados, cavalos encilhados, os “ferros” na cintura, capas de chuva nas costas. Impacientes. Agoniados. Lá pelas 10 horas, Toninho aparece. Com a cuia de mate na mão, mandou a todos recolher os animais no celeiro, dizendo que só ele mais Nêgo iriam até o acampamento e seguiram morro abaixo, a pé. Sequer uma adaga levou. Pra falar a verdade, Toninho só tinha no bolso do capote uma brístola pra picar fumo.  (continua…)

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