Questões de gênero

 

Há poucos anos instituiu-se no país uma polêmica linguística com relação ao gênero do substantivo presidente; a partir do momento em que temos uma mulher ocupando a presidência do país, referimo-nos a ela também como presidente, ou devemos mudar a forma do substantivo para presidenta? Creio que, neste caso, todos nós sabemos que a disputa é muito mais política que linguística.           A maioria dos substantivos da língua portuguesa que se referem a seres humanos apresentam duas formas, uma para cada gênero: enfermeiro, enfermeira; doutor, doutora; lavrador, lavradora; etc. Os nomes de profissões tradicionalmente exercidas por homens às vezes levantam questionamentos: Existem formas femininas para piloto e carteiro? Apesar de causarem estranheza, existem sim: são pilota e carteira. Não faz muito tempo que nos acostumamos com o termo primeira-ministra, mas usamos com naturalidade as palavras juíza ou governadora, visto que hoje em dia não são raros os casos em que mulheres ocupam esses cargos. A palavra presidente, no entanto, pertence a um pequeno grupo que possui apenas uma forma, que usamos tanto para o gênero masculino quanto para o feminino. Neste caso, a distinção entre os gêneros é feita através de artigos (o, a, um, uma) ou de outros determinantes (seu, sua, esse, essa). A palavra presidenta existe e é preferida por alguns; mas não existem motivos gramaticais para usá-la em detrimento da forma presidente também para mulheres, da mesma maneira que usamos a servente ou a estudante. Presidente, portanto, é um substantivo comum de dois gêneros; apesar de não variar, permite a distinção entre o feminino e o masculino através do artigo, numeral ou pronome que o antecede, assim como: o/a cliente, aquele/aquela motorista, um/uma gerente.O tratamento dos substantivos pertencentes a este pequeno grupo, porém, não se resume a essa invariabilidade; ele divide-se, por sua vez, em outros subgrupos:1) Sobrecomum: É o substantivo que serve para designar pessoas de ambos os sexos, mas possui um gênero gramatical determinado; gramaticalmente, é apenas feminino, ou apenas masculino. Um exemplo é criança; esta é uma palavra exclusivamente feminina (a criança, aquela criança). Para distinguir entre os sexos feminino e masculino, neste caso, teremos que usar outros vocábulos, como menino e menina. Por sua vez, este tipo de substantivo divide-se ainda em dois subgrupos:1a) Sobrecomum masculino: É utilizado para ambos os sexos, mas sua forma gramatical é exclusivamente masculina, e com esse gênero concordam todos os seus determinantes: O indivíduo, os dois cônjuges, o anjo, o membro. 1b) Sobrecomum feminino: Possui apenas a forma feminina, apesar de poder ser usado para pessoas de ambos os sexos: a vítima, a testemunha, a pessoa, a criatura.          Entender as explicações acima não é muito difícil, já que encontramos tais padrões facilmente na utilização da língua e nos exemplos dados. Mas sofrendo influências de mudanças constantes, nunca estamos livres de encontrar casos que, apesar das normas, causam dúvidas. Tomemos aqui o exemplo da palavra personagem: Pelo fato de aceitar ambos os gêneros gramaticais, pode enquadrar-se em três grupos, dependendo do tratamento que quisermos dar a ela:A) Comum de dois gêneros: Esta é a posição defendida por Celso Luft, Houaiss e pelo Professor Cláudio Moreno, autor da página “Sua Língua”. Usa-se a personagem para a Capitu de Machado de Assis, e o personagem para o Dom Quixote de Cervantes. Quando usado em sentido agenérico, para todos em geral, é o personagem.B) Sobrecomum masculino: Enquadrando-se o substantivo personagem neste grupo, usa-se sempre o personagem, não importando se é homem ou mulher.C) Sobrecomum feminino: Preferindo-se assim, usa-se sempre o feminino: A personagem Bentinho, por exemplo, mesmo Bentinho sendo homem. Esta escolha baseia-se no fato de que quase todas as palavras terminadas em – agem serem femininas (viagem, coragem).Dificilmente uma das escolhas acima será imposta sobre as demais, pois todas se mantêm, sem podermos dizer até quando. Qualquer que seja a escolhida, um bom princípio a ser seguido é o que nos parece convincente e coerente para ser usado no momento e no lugar em que vivemos. Eu, de minha parte, defendo meu direito de usar a presidente.

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