Reflexão sobre tiros que tombam o futuro da nação

Tiros. Correria. Gritos. Desespero. Sangue. Morte. Palavras duras que bem combinam com narrativas de guerra foram vinculadas, na última semana, a um ambiente escolar localizado em Suzano, cidade da Grande São Paulo. Que tal acontecimento provoque espanto e consternação gerais é compreensível, e meus pensamentos estiveram com as vítimas de tão funesto acontecimento, e com seus familiares. Mas, passado o choque da notícia, é preciso convocar a razão ao trabalho para constatar, em um primeiro momento, que não é a primeira vez que alunos ou ex-alunos voltam as suas escolas para abrir fogo contra colegas conhecidos ou estudantes desconhecidos. E para questionar, em um segundo momento, porque tais acontecimentos ocorrem com tanta frequência no Brasil, enquanto não se conhece nenhum caso sequer parecido nos demais países da América Latina. Poderia me propor a realizar uma breve explanação comparativa, com o objetivo de identificar similitudes e diferenças entre o que ocorre nas escolas brasileiras e o que se passa nas escolas de nossos vizinhos. Creio, contudo, que algumas simples constatações sobre nosso próprio quintal serão suficientes para entender a origem do mato que cresce por toda parte, dificultando a visualização da paisagem mais profunda.
Nosso sistema educacional é muito mal gerido. Culpa não apenas dos governantes, mas principalmente do grosso da sociedade. Ouso dizer, na verdade -e que o leitor tome nota deste momento raríssimo na trajetória desta coluna, que não apenas as mazelas de nossas escolas não devem ser atribuídas aos gestores deste país, como até mesmo me parece que muitos deles fazem um trabalho muito melhor do que a maioria dos brasileiros deseja que façam. Sou professor. Gestor da educação. Conheço vários outros professores e gestores, nas diversas esferas do sistema educacional brasileiro (municipal, estadual, federal, privado). De todos escuto as mesmas histórias, recorrentes, de pais e responsáveis de alunos completamente descomprometidos com a formação de seus filhos, completamente alheios ao que se passa com os mesmos no ambiente escolar. Tenho alunos com os quais trabalho há três anos cujos pais nunca vi, por exemplo, não obstante as numerosas convocações para reuniões. Isso sem entrar no mérito, obviamente, das afirmações que desvalorizam toda uma classe de profissionais engajada na formação dos futuros cidadãos do país. Sim, tenho muita saudade dos tempos em que as pessoas tinham receio de falar besteira e passar vergonha em público!
“Professores são todos doutrinadores”, “estão de greve de novo? Todos vagabundos!”, e “o país não precisa de professores” são algumas das ‘pérolas’ que tive o desprazer de ouvir nas últimas semanas. “Mel filho n preciza de escola, prefiro ensina encaza!”, postou no Facebook um pai que, zeloso pela formação do filho, aparentemente não recebeu suficientes oportunidades para aprender a escrever. E os ataques contra escolas, professores, pedagogos se multiplicam em uma espiral kafkiana, fazendo com que quase cheguemos a admirar políticos que dediquem o mínimo que seja por esta que é a base de qualquer nação que deseje minimamente ser encarada com seriedade no contexto mundial. Uma administração municipal é elogiada por fazer com que “vagabundos” (entenda-se, os profissionais municipais da educação) voltassem ao trabalho; a outra, cujos profissionais simplesmente não veem qualquer motivo para entrar em greve, não é sequer lembrada nas mesmas filas de banco pelo bom trabalho realizado na área. Que me desculpem os leitores, mas o maior problema da educação brasileira não está na política, mas em grande parte dos brasileiros. Pessoas que preferem incentivar seus filhos a filmar e denunciar professores a pensar em melhorar sua formação e suas condições de trabalho. Que querem discutir História com doutores em História; Filosofia com filósofos autores de dezenas de livros e artigos; conceitos de Matemática com quem passou a vida inteira entre números e equações. Pessoas que chamam professores de “mercenários” que “só querem saber de dinheiro” enquanto não abrem mão, em hipótese alguma, de seus próprios salários. Sim, a constatação incomoda. Mas para que a cura de uma doença seja alcançada, é preciso que, primeiro, se proceda o diagnóstico.
O resultado de tal estado de coisas, fácil é perceber, é a criação de um clima extremamente prejudicial dentro das instituições escolares. Um ambiente no qual alunos rivalizam com professores, professores se tornam indiferentes aos alunos, alunos se indispõem com alunos sem que qualquer autoridade benéfica possa tomar pé da situação e propor-se a resolvê-la. Se o professor tenta mediar e ensinar conceitos de civilidade, é um doutrinador comunista. Se o pedagogo aconselha, está desautorizando a família. Se alguém fala mais alto com o jovem, recebe prontamente a visita de pais revoltados (aqueles mesmos, obviamente, que nunca tem tempo para comparecer às reuniões bimestrais). Tenho casos do tipo para contar. Reuniões nas quais, ao final, me reconciliei com o aluno simplesmente porque percebi que ele representava uma evolução notável com relação aos pais. Estas ocorreram há anos ainda em São Paulo, é bom frisar. Cidade grande, caótica, violenta, estressante, capaz de levar o ser humano a extremos inimagináveis de pressão psíquica. Estado que, ao colocar a produtividade capitalista acima de qualquer outro valor se tornou o mais rico da nação, mas também o que conta com a maior proporção de casos de depressão e suicídio. Não apenas entre adultos, mas também entre adolescentes e crianças, submetidos a ambientes hostis sem que ninguém tenha condições de intervir como um porto seguro, principalmente nas escolas mais afastadas do centro, nas chamadas periferias urbanas (não gosto muito do termo pelo valor negativo que adquiriu ao longo do tempo, mas é o que temos).
Bullying. Agressões verbais e físicas. Humilhações. Frustrações típicas da idade mal resolvidas ou simplesmente não resolvidas, seja por falta de apoio dos professores, seja graças à falta de interesse dos pais. “Esta juventude é muito fraca, tem muito mimimi; na minha época também era assim e nem por isso me tornei louco ou bandido”. Bandido talvez não. Louco, em muitos casos, duvido. Porque defender tal ideia enquanto nosso futuro clama por socorro, enquanto nossos jovens adoecem e precisam de medicamentos cada vez mais pesados cada vez mais cedo enquanto são submetidos a pressões inimagináveis sem que recebam qualquer apoio ou incentivo, só pode ser caracterizado como loucura. Os tiros que ceifaram vidas em Suzano também atingiram o que o país tem de mais importante: seu próprio futuro. Culpar professores, escolas, políticos, constitui apenas uma mal ajambrada máscara incapaz de ocultar a dura realidade: é a própria sociedade brasileira que vira as costas a seus jovens quando negligencia sua formação. Enquanto pais se preocupam com supostas doutrinações, contra fantasmagóricos ataques aos “valores fundamentais” da família e da sociedade, jovens desesperados matam a si e aos outros. Triste nação que, não contente em queimar seu passado nos museus, assiste impotente ao aniquilamento de seu futuro com medicamentos e projéteis de chumbo. E ainda querem que um povo doente tenha acesso facilitado a armas de fogo. O que terá de acontecer para que o óbvio seja, finalmente, percebido? Tenho muito receio de, sequer, imaginar. Até a próxima!

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