Resumo e partida.

Este é o quinto ano que escrevo aqui. Embora não tenha uma grande memória não me dei ao trabalho de ir conferir o passado. Não faria qualquer diferença. O equívoco é algo que sempre procurei relevar, raramente escrevo em primeira pessoa. Neste ano procurei trabalhar um conceito, o de sublimação, por uma perspectiva que poderia ser nova, me parecia. Considerei que a escrita é uma condição para isso, e procurei demonstrá-la por duas vias: a da fonética, que implica na deriva do sentido, que suspende um equívoco tão somente pela escrita, no caso em que a fonética não o percebe, cujo exemplo maior é James Joyce, e que consiste num uso homofônico do significante. A escrita, deste ângulo, permite um trabalho no nível da letra, entendida como partícula material, a exemplo do traço, e que encontra no descolamento do som a suspensão de sua arbitrariedade. Esta via, eu a considerei a poética, justamente por ter um caráter musical, rítmico, permitindo ludicidade e desconstrução: é a via que está intimamente relacionada à fala, e, portanto, à voz, por fazer com que a escrita seja, na verdade, o apoio material da fala, e, portanto, do sujeito. Estes equívocos e derivações de sentido pressupõe sempre um falante, sem o qual, não há voz alguma (nem desejo). Só que ao fazê-lo, inevitavelmente, se recai numa metafísica da letra, presente na linguagem fonética. Considerei a sublimação uma operação, portanto, no nível da letra e que consiste em suspender o sentido, ao passo que privilegia a sonoridade. Isto do ponto de vista da fala, da voz. Já do ponto de vista da escrita ela não basta, uma vez que em se tratando de uma operação, seria necessário demonstrar em que ela consiste. A sublimação, desta perspectiva, seria amparada na lógica, uma vez que não se trataria mais de jogar com o sentido, mas marcar seu limite. Aqui encontramos o traço como uma partícula de escrita necessária à conta, pressupondo assim que a língua materna guarda uma relação importante com a matemática. Este tipo de escrita, no nível de uma operação sublimatória, consistiria assim, na escrita de uma impossibilidade, da própria escrita, porque ela não foraclui o sujeito, mas o esvazia, apontando para uma falta fundamental na estrutura, formalizável apenas pela demonstração de que por todos os meios, em toda formulação lógica, há sempre um recorte que institui, pela linguagem, os elementos que a constituem e que são dela excluídos. Neste viés Saussure é testemunho, quando formula o signo linguístico ele escreve a barra entre o significante e o significado, o que equivale a uma impossibilidade da escrita fonética. Escrever um vazio, é algo dessa ordem, é necessário cingi-lo, portanto, dar uma imagem, do que, a rigor, não tem imagem. Ora, isto, de uma perspectiva analítica, não deixa de ter relação com o falo, pois, como um significante, ele é aquilo que inscreve na estrutura sua lógica, o que, no entanto, não é tudo. De outra parte, não havendo um significante do nada, resta formular, conforme Lacan, o não-todo, fálico. Procurei, por fim, dado que a sublimação necessariamente seria da ordem de uma marca, fazer uma crítica a este desenvolvimento que fiz, pois, o termo desaparece da obra lacaniana a partir de 1969. Ora, sendo o sinthoma da ordem de uma escrita homofônica, julguei adequado não compreendê-lo como conceito, no caso de Joyce, mas como um nome próprio. O termo é dado em equivalência a toda criação, pelo psicanalista, onde o real, seu conceito, é confessado como seu sinthoma (dele Lacan). Assim o sinthoma Joyceano, que consistiria na interrogação do desejo de Nora, sua mulher, levaria a escrita de uma imagem de um toro, no Finnegans Wake, por terminar no início da obra (uma gigantesca escrita do vazio, ao centro). A carência paterna, aludida por Lacan, ao contrário da leitura majoritária, para mim, não significa mais que carência de significação (fálica), e de modo arbitrário, pois, no Ellmann se lê claramente que o irlandês teve enorme dispêndio para escrever o romance. Não se trata de algo imposto, daquela maneira, mas algo escrito para suspender, e não para aglutinar, como um delírio. Portanto, Santo Homem, nome dado a Joyce por Lacan, é uma operação à maneira joyceana. O que permanece sintomático, sem h, é justamente a impossibilidade de escrever, à maneira lacaniana, a relação sexual. A isto rendo homenagem e me calo.

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