Séries adolescentes e a Netflix

Tem algumas coisas acontecendo no mundo da cultura pop de que vale a pena falar. Aqui em Curitiba a gente acabou de sair da ressaca do Festival de Curitiba, com quase 400 atrações em 12 dias de festival. Mas de memorável mesmo fica difícil falar. Teve a abertura do evento com Gira, do Grupo Corpo, que talvez seja a coisa mais passível de indicação. O espetáculo está sempre circulando pelo Brasil e pelo mundo e, caso você esteja em algum lugar onde o grupo esteja se apresentando, eu sugiro que você veja. Gira parte de vários elementos da Umbanda, com as coreografias criadas a partir de movimentações de cada entidade da religião de matriz africana. Mas para Rodrigo Pederneiras, coreógrafo do grupo, a principal referencia de construção é Exu e a trindade céu, caos e chão. Com trilha original da banda Metá Metá (que pode ser encontrada no Deezer ou no Spotify) e direção de Paulo Pederneiras, Gira foi definitivamente a melhor coisa que eu vi no festival desse ano.

E aí também tem as estreias da Netflix, que são bem mais legais de indicar porque com alguns cliques no controle remoto da televisão você pode acessar tudo pra concordar ou discordar de mim. Independentemente das discussões de qualidade, fato é que o conteúdo está ao alcance de todo mundo. Tem algumas coisas das quais eu preciso falar, que já estão no catálogo faz um tempo, mas por motivos vários foram sendo deixadas de lado. O maior motivo talvez tenha sido o Oscar. Mas também tem a quantidade exorbitante de estreias de filmes e série que já rolaram esse ano.

Então quero indicar duas séries que partem do mesmo material, adolescentes em conflito amadurecendo (o clássico gênero coming of age), mas que se desenvolvem de maneiras muito diferentes. Everything Sucks se passa numa cidadezinha no interior dos Estados Unidos, em 1996. Mas ao contrário do que acontecia na televisão naquele ano, a série é protagonizada por um menino negro e uma menina descobrindo que é lésbica. Há vinte anos isso era impossível de se ver na tv. Com um humor sutil e momentos singelos, a série mostra uma vida em outro tempo, sem tantos gadgets tecnológicos, com trilha sonora inteiramente fundamentada no período, fazendo o coração de qualquer nostálgico palpitar. Infelizmente, apesar da primeira temporada ter deixado várias pontas soltas para se resolver, a série foi cancelada. O elenco e alguns fãs tem feito campanha na internet para que a Netflix volte atrás, mas o canal de streaming ainda não se posicionou sobre isso.

The End of the F***ing World também trata de amadurecimento, mas os adolescentes em questão são muito mais esquisitos e misantropos do que os fofos de Everything Sucks. Baseada no quadrinho de mesmo nome, a série acompanha James e Alyssa enquanto fogem de casa e na escalada dos eventos acabam cometendo delitos leves e crimes complexos. James acredita que é um psicopata, tendo matado vários animais de vários tamanhos, agora precisa matar algo maior, uma pessoa. Alyssa foi abandonada pelo pai e tem uma relação complicada com a mãe e seu novo marido, um babaca de marca maior. Em busca de outra vida ela decide ir atrás do pai que não vê há anos. Ela decide que James será seu namorado. E James decide se fazer de apaixonado para poder matá-la. E com motivos ocultos, cada um os seus, eles acabam fugindo juntos. A cada episódio o absurdo e a tensão vão se intensificando, até o clímax no oitavo e último da temporada. The End of the F***ing World acaba justamente no mesmo ponto em que a série em quadrinhos termina, o que talvez nos deixe com a sensação de obra completa. Porém, o fim é também um gancho e poderia (sempre poderia) ser explorada uma segunda temporada a partir de uma ideia original. A série é do britânico Channel 4, mas atingiu seu auge de fama ao ser exibida pela Netflix. Os criadores deixam em aberto a possibilidade de uma segunda temporada, algo que pode ser encarado tanto como uma boa ou uma má notícia.

 

Leave a comment

Your email address will not be published.


*


Carregando...