Sobre educação e incompreensão

Poucos temas são tão discutidos e tão mal compreendidos quanto a educação. Se é verdade que, como alguém disse uma vez, todo brasileiro é médico e técnico de futebol, talvez seja correto acrescentar que, a estas duas profissões, aqueles identificados com o hábito nacional de opinar sobre tudo também possuem a de professor. Aliás, professor não, que professor é muito raso. De ministro da Educação. Sim, todo mundo sabe o que é melhor para a educação. Todo mundo sabe exatamente como deve ser organizada uma sala de aula, e todo mundo sabe o que um professor deve ou não ensinar em suas aulas. Não interessa se o docente se doutorou em Matemática, Física, História ou Química… Todo mundo sempre saberá o que ele deve ensinar e, o que é mais impressionante, como deve ensinar. A prática é tão comum que, acredito, o palpite deveria ser colocado no panteão dos esportes nacionais. Quem sabe um dia vire esporte olímpico? Pode ser… mas o caso é que, se é verdade que todo mundo sempre tem na cabeça um esquema tático matador, capaz de fazer seu time se tornar campeão do mundo só com jogadores reservas batendo, com grande facilidade, qualquer esquadrão europeu, também é verdade que em poucos setores estas ditas táticas possuem tanto potencial destrutivo quanto no educacional. Afinal de contas os técnicos de plantão pelo menos possuem o hábito salutar de assistir partidas frequentemente, muitas vezes mais de uma por semana. No que toca ao cotidiano de uma instituição escolar, contudo, a julgar por nosso histórico de aproveitamento acadêmico, talvez seja justo dizer que esta frequência não seja tão grande nem, mesmo, tão bem aproveitada.
Mas por que, afinal de contas, escolhi este tema para nossa conversa desta semana? Porque, como o atento leitor já deve saber, é nesta semana que se inicia o período de propaganda eleitoral, sendo precisamente nestes meses que as ideias mais mirabolantes acerca do único instrumento de efetiva melhoria da sociedade brasileira ganham livre circulação entre os mais diversos setores da população. Algumas já estão na boca de muita gente. “Educação boa é aquela que forma para o trabalho”. Não discordo totalmente. Apenas questiono se, afinal, estamos apenas formando empregados ou devemos nos preocupar, também, com cidadãos. Afinal de contas ensinar a exercer uma profissão nem é tarefa das mais complicadas. Mas e quanto ao que o ser humano hoje em formação fará quando não estiver trabalhando? Aliás, como ele conseguirá trabalho, caso o setor no qual se especializou seja afetado por alguma das recorrentes crises tão características da economia brasileira? E, finalmente, como conseguirá atuar para resolver seus problemas do cotidiano, exatamente aqueles que nós também enfrentamos e para os quais, muitas vezes, a resposta mais efetiva deriva exatamente da análise mais detida de tudo aquilo que nos rodeia? Formar para o trabalho este país já faz desde, pelo menos, a década de 1930. O fato de que desde então ainda não conseguimos resolver a imensa maioria dos problemas que nos assombra como sociedade oferece indicações preciosas de que, muito possivelmente, este não é o caminho mais adequado.
Aliás, já escrevi várias vezes nestas linhas sobre as propostas incrivelmente inovadoras que de tempos em tempos aparecem apenas para mostrarem-se, como certa vez cantou Cazuza, um “museu de grandes novidades”. Educação não se renova com soluções velhas, nem, tampouco, com preguiça de se pensar em novas soluções. Não é mais possível enxergar na formação daqueles que serão responsáveis pelo futuro uma comprovadamente falsa relação causal entre quantidade de conhecimento decorado e capacidade de ser bem-sucedido na vida em sociedade. Nós próprios somos ótimos exemplos de que, muito simplesmente, não é assim que a coisa funciona. Não lembro absolutamente nada de quase a totalidade das aulas de Química que assisti nas escolas que frequentei, por exemplo. Mas lembro de cada palavra dita por um certo professor de Matemática que possuía a qualidade ímpar de efetivamente se preocupar com o aluno e com seu aprendizado. Aprendi a realizar complexos cálculos com ele? Não, infelizmente. Mas entendi que somente me preocupando com o próximo eu teria alguma possibilidade de ter momentos felizes na vida em sociedade, conhecimento que vale muito mais do que qualquer pontuação obtida em qualquer vestibular ou concurso público. É o que procuro aplicar hoje, em minha busca pela construção de um mundo menos injusto e sofrido através da educação efetiva. É o que devemos procurar em todo candidato que se apresente como merecedor de nosso voto. Haverá algum que efetivamente o mereça? Provavelmente não. Mas é de nossa busca incessante que sobrevive a esperança de que, um dia, viveremos em um país efetivamente melhor do que aquele construído por nossos avós. Até a próxima!

Nota de esperança: ocorreu no último dia oito de agosto, nas dependências do campus União da Vitória do IFPR, o lançamento do primeiro romance da autora Jennifer Maurer, de apenas dezesseis anos de idade. Um exemplo claro de que a preocupação com o outro, de que o incentivo à realização de seus sonhos, na imensa maioria das vezes vale muito mais do que o mais complexo dos conteúdos meramente decorados. Significa um toque de esperança de que a educação ainda será capaz de modificar a realidade das pessoas, apesar de todos os ataques e projetos mal concebidos de que vem sendo alvo. Que boas notícias como esta possam continuar nos inspirando, e que ainda possamos sonhar com o dia em que todo educador possuirá, ao seu alcance, todas as condições necessárias para continuar salvando vidas da falta de compreensão, do tédio e do fracasso pessoais motivados pela imposição de objetivos que simplesmente não são aqueles desejados pelos alvos das mais injustas das cobranças. A ocorrência deste dia ainda parece apenas uma utopia distante. Aproveitemos, contudo, que sonhar ainda não paga imposto, embora trabalhar pela concretização deste sonho ainda exija altas somas de comprometimento, as quais, infelizmente, nem todos parecem dispostos a pagar.

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