Sozinho no cinema

Nunca havia pensado na primeira vez que fui sozinho ao cinema. Lendo o mais recente livro de Paul Auster, o monumental 4 3 2 1, fui pensar nisso, já que em determinado momento da narrativa, o personagem central que sempre ia ao cinema com sua mãe, vai pela primeira vez sozinho. Fiz um exaustivo esforço de memória para tentar resgatar essa minha primeira incursão sozinho a um cinema. Tive que rememorar minhas primeiras idas ao cinema, ora com minha mãe, que era cinéfila como eu, ora com tia Lulu. Só depois comecei a ir com meu primeiro amigo, Tyrone José Braz Duarte, que morreu, precocemente, em Ponta Grossa, aos 42 anos. Com Tyrone entre outras coisas assisti as aventuras do herói mexicano, Santo, o Mascarado de Prata, que eu nunca mais havia ouvido falar até que, há uns dois anos, em um restaurante mexicano no Itaim Bibi, logo na entrada me deparei com um imenso pôster seu.
Com minha mãe assisti a todos os western spaghetti dos anos 60, desde Django, O dólar furado aos hoje clássicos westerns de Sergio Leone, estrelados por Clint Eastwood, como, Por um punhado de dólares e Por uns dólares a mais. Os filmes passavam aqui com uns dois anos de atraso e lembro de ter assistido com tia Lulu ao clássico de guerra, Fugindo do inferno, de John Sturges, por volta de 1967, portanto quatro anos após seu lançamento que foi em 1963. Com minha mãe assisti a Invasão secreta, de Roger Corman, o grande mestre dos filmes B. Gostei tanto do filme, que assisti novamente com tia Lulu e de novo com tio René. Também lembro de épicos filmes de gladiadores estrelados por Richard Harrison, que minha mãe adorava, tanto quanto seu ídolo dos anos 40 e 50, Gary Cooper.
Depois de um tempo comecei a ir ao cinema com os amigos, Nivaldo Camargo e Paulo Murara, assisti no Cine Odeon, A mais cruel batalha, filme B, dirigido por Cornel Wilde e uma das primeiras distopias cinematográficas de que me lembro. Saímos do cinema muito incomodados e como tínhamos uns 15 anos, pensávamos como iríamos sobreviver em um mundo apocalíptico. Depois eu, Nivaldo e Paulo seríamos seduzidos por Butch & Cassidy, de George Roy Hill. Não apenas a história dos célebres ladrões nos seduziria, mas também a beleza de Katherine Ross e a emblemática canção de Burt Bacharach, Raindrops keep falling on my head, um dos primeiros sucessos de BJ Thomas. Depois veríamos no Cine Odeon, eu, Paulo e Paulinho Rochembach, Roy Bean – o homem da lei, John Huston e no qual eu veria pela primeira vez aquela que por muito tempo eu considerei a mulher mais linda do mundo, Jacqueline Bisset.
Também no cine Odeon eu, Paulo e Paulinho assistiríamos a Os ladrões, de Henri Verneuil, com Jean Paul Belmondo e Omar Sharif.
Não posso deixar de mencionar Gloriosa retirada, filme de 1963, e, também dirigido por Henri Verneuil. Na época ainda muito garoto, não entendi o filme, e, o detestei. Eu o veria anos depois e acharia um grande filme. Eu e minha mãe assistíamos tudo que passava nos cinemas, menos Mazzaropi e Cantinflas que eu odiava.
Lembro também de que para entrarmos em O exorcista, de William Friedkin, tivemos que entrar todos com o alistamento militar de Nivaldo, que passava por debaixo da porta para cada um de nós.
Em março de 1975, Paulo, Zinho e Marcos Murara foram morar em Canoinhas, Paulinho estava no exército e não lembro por que Nivaldo não foi comigo ao cinema. Dessa forma, pela primeira vez eu iria sozinho ao cinema, assistir ao terrorzaço, A casa da noite eterna, que nem lembro quem era o diretor e nem mesmo os atores. Filme apavorante que me fez voltar para casa meio assustado.
Assim foi meu debut sozinho a um cinema. E o de vocês, meus caros leitores?

Inspiração e tristeza
Escrevi essa crônica ouvindo a belíssima, Windmills of your mind, de Michel Legrand.
Presto aqui singela homenagem a este que foi um dos maiores compositores dos últimos 100 anos.
Autor de algumas das mais belas trilhas sonoras dos últimos 50 anos entre as quais a do filme Crown o magnífico, na qual está a canção que menciono acima e que lhe valeu um Oscar. Também é de Legrand a belíssima trilha do igualmente belo, Houve uma vez um verão.
Legrand morreu há alguns dias, aos 90 anos, entristecendo a todos, que como eu amava suas canções.

Decepção
Tentei não falar em política, mas não dá. Fico entre a perplexidade, a tristeza e a decepção ao ver pessoas esclarecidas compartilhando posts que procuram defenestrar personagens importantes da vida brasileira, como Jean Wyllys, Marielle Franco e Marcelo Freixo, em uma cantilena retrógrada e conservadora.
Só falta mesmo ofenderem uma gigante de nossa vida pública, como Luiza Erundina que do alto de seus 84 anos, é uma das mais fervorosas defensoras da democracia.
E só falta também que esses que criticam os supracitados e os gigantes da MPB, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil e a Lei Rouanet, que é a responsável, por exemplo, pela manutenção de grandes exposições do MASP e Pinacoteca de São Paulo, elogiar Flávio Bolsonaro e Damares Alves.
Não falta não. Eles já o estão fazendo. É claro que de forma indireta, ou subliminar, se preferirem. Falta-lhes coragem ainda. Mas nada mais me surpreende.

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