Sublimação e metáfora

A noção de sublimação, tal como a concebo, ultrapassa a de metáfora, e abre um caminho para além do gozo fálico, porquanto este é determinado pela ordem da significação, da metáfora paterna. Uma metáfora, qual seja, responde a uma troca no campo discursivo de um elemento no lugar de outro. Ora, no Édipo, lido por Lacan, a metáfora paterna é uma operação que estabelece, frente ao enigma do desejo do Outro (mãe), uma significação fálica: primeiro a criança é o falo faltante da mãe, depois ela (a criança) poderá ter o falo. Nesta operação o quarto termo, pai, entra em cena como aquele que teria tal falo, deixando a criança privada dele, e abrindo o campo do desejo, como desejo do Outro. Ou seja, ao enigma do desejo da mãe, para além do objeto que a criança deixa de ser, a função paterna opera como inscrição da metáfora: ela é ali reportada à falta representada no desejo da mãe, e localizada no pai. Toda significação metafórica posterior seguirá este funcionamento operativo de substituição. O significante do Nome-do-pai, portanto, nomeia o limite das operações metafóricas, e assim, o campo relativo ao sentido, ao ordenamento significante como articulador de uma significação. Nestes termos, a estrutura clínica da neurose é submetida ao Nome-do-pai, cujo discurso pode ser reconhecido passeando entre os quatro: do mestre, da histérica, do universitário, e do analista. De outra perspectiva, a estrutura psicótica é justamente aquela que não está inscrita no campo fálico: a operação metafórica sofre os efeitos da não inscrição do Nome-do-pai, resultando, assim, no discurso psicótico (literal). O delírio, como Freud mostrou, seria uma tentativa de fazer esta inscrição, trabalhando a serviço de uma lógica incansável. O problema da sublimação começa, nesta perspectiva, justamente aí. Se é verdade que a sublimação não é equivalente do belo, pois o belo funciona no registro do velamento da Coisa, a sublimação, igualmente, não pode ser pensada no nível da metáfora. Portanto, campos distintos: o belo, a obra de arte, pertencente ao campo do significante fálico: o objeto de arte encobre com sua beleza a ausência fálica, no limite, a Coisa. Já a sublimação, está situada como uma borda da Coisa, e a mostra, só que esvaziada de significação. Portanto, são duas operações distintas: uma encobre a Coisa com um objeto belo, a outra realça a Coisa por meio de um cingimento. Só que, ao fazê-lo, só o pode com um mínimo de matéria, seja o traço, e aqui o problema se amplia: este traço que cinge um nada, é ele parte da linguagem, e portanto, apesar de significar nada, do campo simbólico? Ou, ao contrário, é o limite de esvaziamento? Seria, um esvaziamento da metáfora, ou uma suspensão dela? Estas questões levam, assim, à articulação de modos de gozo distintos: de um lado o fálico, mas de outro, feminino, um gozo não-todo fálico (significante do Outro barrado). Se houver equivalência entre o gozo não-todo, feminino, e o gozo do psicótico, parece haver entre estes, e, aquele que se encontra na sublimação: prescindir do Nome-do-pai encontra então uma afluência econômica no objeto, produto, da sublimação. De modo que, se a inscrição fálica se dá como um nó, a sublimação é um desatamento. Isto, entretanto, levaria ao questionamento sério do estatuto do sinthoma, posto que, guardaria equivalência, e seria assim, um nome, da sublimação.

 

Psicólogo clínico, especialista em Teoria Psicanalítica e em Neuropsicologia. Atende em Caçador e União da
Vitória.
giuliano.metelski@gmail.com – WhatsApp: (49) 99825-4100 / (42) 99967-1557.

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