Tempos líquidos

As ruas vão e vem… … os passos que eu deixei, desenhei no chão, apaguei. Andei em vão, quantas esquinas guardei dentro de mim, quantas histórias não tem fim… as ruas somos nós…
Esse é um trecho da canção As ruas, do jornalista, escritor e compositor Luis Nassif. Sempre que a ouço sou remetido à rua Barão do Cerro Azul e seu entorno, onde cresci.
Há uns três domingos, caminhando pelas imediações da Barão do Cerro Azul, mais uma vez me dei conta das mudanças da paisagem urbana, assim como da geografia humana. Casas outrora simples, deram lugar a imponentes residências e antigos proprietários deixaram esse mundo e foram substituídos por novos donos. Percorri velhos caminhos, ouvido velhas canções de minha adolescência, envolto por nostálgica melancolia, próprio talvez de quem se aproxima dos 60 anos.
As ruas, ou pelo menos, algumas delas, como na canção de Nassif, ainda guardam esquinas dentro de mim e tem sua própria trilha sonora.
Como disse em minha crônica anterior, redescobri Carole King em janeiro deste ano, em uma caminhada pela praia da Armação, em um magnífico entardecer na Penha.
Ao terminar a caminhada, busquei uma cadeira de praia no apartamento onde estava e me sentei na beira do mar, vendo o azul do céu ir gradualmente cedendo lugar a escuridão da noite, enquanto eu ia de Carole King a Boz Scags, Elton John, Stylistics, terminando com Earth Wind and Fire, que eu veria no Tom Brasil em São Paulo em março deste ano. Naquele entardecer eu ouvi as mitológicas baladas do Earth, Wind and Fire, After the Love as gone e Fantasy, que ainda ouviria em casa e em outras caminhadas, antes de as ouvir ao vivo e retornar aos míticos anos 70, década de som, fúria e paixões, em que, contrariando Marx, tudo que era sólido não se desmanchava no ar.Pouca coisa ou quase nada, dissolvia-se na fina poeira do ar. Ainda não vivíamos os líquidos tempos da impermanência, do efêmero e talvez por isso, não tão marcados pelo sentimento quase que permanente de incompletude que hoje nos acomete. Isso talvez soe como certo saudosismo. É possível, entretanto, os tempos eram menos líquidos, insisto. Ainda havia tempo, como nos ensinou o grande poeta Belchior, ainda havia tempo para que alguém guardasse uma frase pra você, dentro de uma canção e escondesse para você um beijo, sob as dobras do blusão. Ainda havia tempo para ouvir o rádio do carro, para a turma de outro bairro.
Como o poeta nos ensinou, é preciso que, quando a vida nos violentar, falaremos para a vida: vida pisa devagar, cuidado, meu coração é frágil.

 

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