Tempos sombrios

Terminei de ler, ou melhor, ouvir, embora prefira dizer que leio com os ouvidos e não com os olhos, o livro Ventania, de autoria do escritor e dramaturgo. Alcione Araújo. Terminei de ler, ou melhor, ouvir, embora prefira dizer que leio com os ouvidos e não com os olhos, o livro Ventania, de autoria do escritor e dramaturgo. Alcione Araújo. A história se passa na fictícia cidade de Ventania, situada em qualquer lugar do interior desse imenso Brasil e tem como um de seus motes centrais a criação de uma biblioteca. A empreitada é de Lorena Krull, principal personagem feminina, que aos 31 anos é obrigada a voltar da capital, para sua cidadezinha de origem, para cuidar do pai, que após ser abandonado pela mãe sofre um grave AVC. Lorena é bonita, rica e culta e resolve dotar a cidade de uma biblioteca. Para isso recorre ao prefeito para que pelo menos providencie o local. O prefeito abrutalhado pela ignorância, nega qualquer tipo de apoio, alegando que a cidade tem outras prioridades e além de que uma biblioteca seria de pouca utilidade, para uma cidade com alto número de analfabetos e cujos poucos moradores letrados não cultivam o hábito da leitura. Lorena sai decepcionada, mas não desiste e a contragosto decide recorrer ao tio senador, que condiciona o apoio ao nome da biblioteca que deverá ser o seu, fato possível, já que a história se passa em 1961. Lorena concorda, mas para não dar o braço a torcer completamente, não vai à inauguração, que conta com banda de música, distribuição de sanduíches e passeio de ônibus pela cidade. O imóvel é da prefeitura, já que o prefeito atende ao pedido do senador, que doa o mobiliário e o acervo. A frequencia dos consulentes é baixíssima, pois nem mesmo os alunos do único colégio local são estimulados pelas professoras e equipe da Secretaria Municipal de Educação. Que do alto de sua mediocridade entendem que o acervo é inapropriado e, portanto inadequado para a juventude da pobre cidade. Lorena, solteira moderna e libertária, não é bem vista pela maioria retrógrada e conservadora, mesmo assim começa a receber alguns frequentadores, entre os quais Delphos, o chefe da Estação Ferroviária e narrador da história. Ele é iniciado na leitura com Madame Bovary, a clássica obra de Gustave Flaubert, passando posteriormente para Dostoiévski e outros cânones da literatura mundial. Oportuno lembrar que ele não tem uma das pernas, perdida em um acidente na ferrovia, é um homem mais velho e careca e que se apaixona por Lorena e para conquistá-la resolve ser escritor, empreendendo uma jornada quixotesca em busca de sua Dulcineia. A biblioteca também recebe a vista de Zé José, um menino de 13 anos, louro, alto e forte o bastante para sua idade. Ele nunca havia lido um único livro na vida, vai muito mal na escola e sua mãe concita-o a ler, tentando demover seu marido que quer mandá-lo para um internato. Lorena habilmente sugere como obra iniciática, o monumental, Os meninos da Rua Paulo, do húngaro Ferenc Molnár, a ele se seguem Robinson Crusoé, de Daniel Defoe, Don Quixote,  de Manuel de Cervantes e  Crime e Castigo,  de Fiódor Dostoiévski. Zé José também se apaixona por Lorena e ela por ele. Meu objetivo aqui não é a crítica literária, que deixo para meu amigo, Caio Bona Moreira, também colunista de Caiçara, e sim traçar um pequeno paralelo entre situações vividas em Ventania, como o irrompimento de uma velha senhora na biblioteca bradando impropérios e ameaçando Lorena por disseminar  livros recheados de perversão entre a juventude, como Madame Bovary.  Nem toda semelhança com o que temos visto no Brasil, principalmente nas redes sociais é mera coincidência. Tanto a velha senhora do livro que condena Flaubert sem nunca tê-lo lido, como aqueles que querem a volta da censura, são farinha do mesmo saco.Num átimo, muita gente sem nunca ter entrado em um museu e sem o menor conhecimento das artes, virou crítico, empunhando o estandarte da demagogia e de um moralismo de almanaque. Falo principalmente do patrulhamento que recebeu o bailarino e coreógrafo, Wagner Schwartz, autor da performance  La Bete, no MAM, em São Paulo. O trabalho de Schwartz é inspirado na obra Bichos, de Lygia Clark e ao contrário daqueles que apenas viram a postagem de um vídeo, totalmente descontextualizado do significado da performance, nada apresenta de erotização do corpo humano e muito menos de pedofilia.  Vi inúmeras manifestações retrógradas e obscurantistas, que nos remetem à Idade Média. Tempos sombrios.Há alguns dias, no Botanic Café, em Curitiba, ao lado de um grupo de artistas e intelectuais, entre os quais minha filha, Nina Rosa Sá, que é diretora de teatro, dramaturga e roteirista, da atriz e compositora, Clarissa Oliveira, vencedora do Troféu Gralha Azul 2017, na categoria, Composição Musical,  do dramaturgo, Diego Fortes, vencedor do Prêmio Shell 2017, na categoria dramaturgia, do   escritor, dramaturgo e editor, Otávio Linhares, da dramaturga e escritora, Martina Sohn Fischer, do ator Gabriel Gorosito, das atrizes Kelly Eshima e Ludmila  Nascarella e da atriz e produtora Nina Ribas, ouvi unanimemente a condenação da censura e desta espécie de histeria demagógica, em defesa das pessoas de bem, da família e dos bons costumes.  Comentei com minha filha que  a opinião daquele grupo era alentadora para mim, que via nas novas gerações muito mais ideias renovadoras, progressistas e como tal, libertárias, das que ouço de pessoas de minha geração, ao que Nina me interpelou dizendo que não era bem assim e que ela havia, naqueles dias, se envolvido em um debate com alguns antigos colegas de colégio, num grupo do Facebook. Alguns deles defendendo a volta da censura, da ditadura militar e defendo as idéias de Bolsonaro. É inacreditável o que a falta de conhecimento de nossa história recente pode fazer.Tempos sombrios.

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