Tia Lulu e o acaso

No dia 13 de março de 2019, a Associação de Artistas Plásticos Amadeu Bona em parceria com a Secretaria de Cultura de União da Vitória, promoveu a abertura da exposição denominada, Mulheres que fizeram a história de Porto União da Vitória, e Lulu Augusto foi uma das homenageadas retratada que foi, com muito talento, por Beatriz Bolbuck.
Não gosto da expressão Porto União da Vitória, pois mesmo as cidades, cultural, e, socialmente, sendo quase que uma só, elas são duas, daí entendo a necessidade da menção do nome completo de ambas, mas isto é história para outro dia.
Não acredito em determinismos, sou um discípulo do acaso, embora às vezes, uma sucessão deles me faz pensar um pouco. Vamos a eles: No dia da abertura da exposição, 13 de março, foi o dia em que tia Lulu faleceu, há três anos.
No dia 15 de março, data de nascimento de tia Lulu, recebo a visita da jornalista Mariana Honesko Bortolini, para me entregar o convite do lançamento de seu livro, Zilda – O assassinato da Santinha, que tive a honra de prefaciar.
O assassinato da menina Zilda Santos, em 1948, motivou a criação do Jornal Caiçara, cinco anos depois, em 1953. As primeiras denúncias do bárbaro crime, perpetrado por conhecidas figuras da sociedade da época, forma feitas por meu tio, Dante de Jesus Augusto, nos microfones da Rádio União, em seu programa, Bom dia para você. Dante era funcionário público e foi transferido para Curitiba, tendo com isso interrompido seu programa e, consequentemente, as suas denúncias. Logo em seguida, tia Lulu também vai morar em Curitiba, onde funda, junto com sua amiga, a advogada, Maria Alba Mendes Silva, a Albinha, o jornal literário Jandaia. Tio Dante adoece, e, morre, em 22 de novembro de 1952, aos 39 anos, decorrente de uma mal sucedida, hoje corriqueira, cirurgia de vesícula. Lulu fica mais alguns meses em Curitiba e retorna para União da Vitória.
Lulu a exemplo de seu irmão Dante, também vai trabalhar na Rádio União e como ele continua a denunciar o crime, escrevendo uma radionovela, na qual vai contando a história do assassinato de Zilda. A cidade para literalmente, para ouvir a novela. Nos dias que antecedem o último capítulo, Lulu elabora chamadas, dizendo que no derradeiro capítulo serão revelados os verdadeiros nomes dos algozes de Zilda. Temendo a exposição pública, os denunciados entram com ação na justiça pedindo que tal capítulo não vá ao ar. A justiça acolhe a solicitação e manda suspender a novela, ameaçando de prisão tia Lulu e demais rádioatores. Nesse ínterim, as meretrizes da Rua Cruzeiro, local onde Zilda foi morta, ao ouvirem a notícia de que a novela estava cancelada e Lulu ameaçada de prisão, se mobilizam e fazem um cordão humano em frente à Rádio União, tentando com isso evitar a prisão de Lulu e também permitir que o último capítulo fosse ao ar. A corajosa atitude das moças de vida nada fácil evita a prisão, mas não evita a retirada da novela do ar. Diante de tudo isso, Lulu caba saindo da rádio e seu pai, Didio Augusto, decide publicar o texto do último capítulo no Jornal O Comércio, onde era colaborador. A direção do jornal veta a publicação e meu avô, resolve fundar um jornal para prosseguir com as denúncias, dizendo que o fará, nem que o referido jornal tenha apenas um número. Tia Lulu, imediatamente, encampa a idéia de seu pai e funda o Jornal Caiçara, cuja primeira edição data de 12 de agosto de 1953, e, segue nas investigações da morte de Zilda e de outras mortes que aconteceram relacionadas ao caso, denotando claríssima queima de arquivo, que só a polícia não quis enxergar.
A jornalista Mariana rememora tudo isso em seu livro e ao se referir a Lulu Augusto, menciona sua coragem. Dizendo: “Lulu tinha lama nas botas”. Tinha mesmo, tanto que dirigiu Caiçara por quase 63 longos anos, até os últimos dias de sua vida
Nessa sequencia de acasos, minha filha, Nina Rosa, que hoje mora em São Paulo, sem saber de nada disso que aqui narro, me ligou ali pelo dia 19, me pedindo mais substratos sobre o Crime do Iguaçu, pois ela iria inscrever um projeto teatral em um edital da Fundação de Cultura de Curitiba, no qual pretende contar não apenas a história do bárbaro crime, como a vida de Lulu Augusto.
Não sei se é o acaso, ou o que é, mas exatamente no mês de sua morte e de seu nascimento a figura de Lulu Augusto uma das mais importantes personagens femininas da história de União da Vitória e Porto União, volta a povoar o noticiário e o imaginário das cidades.
Termino com lamento. Dizendo que em 2017, procurei o então presidente da Câmara de vereadores de União da Vitória, solicitando um projeto para designar um nome de rua, ou logradouro público, com o nome de Lulu Augusto, o que até hoje não aconteceu.
Não sei se acaso ou não, parece que até hoje sua coragem, vanguarda e ousadia continua a incomodar.

Tristeza, decepção e desilusão
Ao ver, desde a campanha eleitoral do ano passado muitos de meus amigos apoiando a candidatura de Jair Bolsonaro, fiquei triste, além de, um tanto quanto, indignado. Essa indignação advinha do fato de Bolsonaro, ao longo de sua carreira, ter se notabilizado por declarações racistas, homofóbicas, misóginas e em defesa da tortura e demais atentados à democracia, praticados pela ditadura militar, nos anos de chumbo que duraram de 1964 a 1985. Entendo que vivemos em um país democrático, entretanto, havia candidatos melhores que Bolsonaro, dentro do espectro mais à direita. Não queriam mais o PT e nem o PSDB, havia Amoedo, Meireles e Álvaro Dias.
Passadas as eleições, o presidente eleito monta um ministério tão incapaz quanto ele, com destaque negativo para Damares Alves, intolerante, preconceituosa, fundamentalista religiosa e que mentiu deslavadamente ao dizer que era advogada e mestre. Desmascarada pela Folha de São Paulo, tentou justificar o injustificável, dizendo que a graduação e seu mestrado, foram ministrados dentro de sua igreja. Tenha dó. O ministro da educação, Ricardo Velez Rodriguez, nem brasileiro é, falando um português tosco e carregado de sotaque. Mas, convenhamos isso até seria irrelevante, caso o sujeito tivesse a mínima qualificação. Foi se notabilizando pelas bobagens que dizia e culminou com a tal portaria que obrigava alunos da rede pública a entoar, diariamente, o Hino Nacional, enquanto eram filmados e após isso ainda seriam obrigados a ouvir o slogan de campanha de Bolsonaro. Foi, duramente, criticado e voltou atrás. Ao ser inquirido na Câmara Federal, demonstrou desconhecer a política de sua pasta, talvez por não haver nenhuma, exceto a tal escola sem partido. Foi um vexame. O chanceler Ernesto Araújo, pupilo do astrólogo Olavo de Carvalho, que já chegou a dizer que a terra é plana, também ganhou fama fazendo asneiras, dizendo a mais recente, a de que o nazismo é de esquerda. Bolsonaro corroboraria e repetiria no dia seguinte essa teoria esdrúxula, que foi, duramente, criticada até pelos diplomatas do Instituto Rio Branco. E ainda há quem diga que Bolsonaro compôs um bom ministério.
Após a tristeza do primeiro momento, veio a indignação a que me referi anteriormente e agora veio a decepção, com aqueles poucos amigos que ainda mantenho no Facebook e que tem compartilhado verdadeiras barbaridades contra a democracia, liberdade e direitos humanos. Primeiro foram as postagens absurdas contra Jean Wyllys, saudando Clodovil. Que mesmo deputado por vários mandatos, jamais defendeu a causa LGBT. Depois foram os impropérios desferidos contra Marielle Franco, chegando até a saudar os bandidos que quebraram a placa erigida em sua homenagem , assim como compartilhar uma obtusidade de um paranóico apresentador de TV, que bradava que havia outras vítimas iguais a Marielle e que a policia deveria investigar a todas da mesma maneira. Sugerindo com isso que estava a serviço de alguém para quem interessava retardar as investigações ou no mínimo desviar o foco. E houve quem postou e compartilhou o vídeo do lunático conservador. E a cada dia que entrava em uma rede social, crescia minha decepção, enquanto me perguntava: Quem inspira essas pessoas, que nunca tiveram nenhuma espécie de ativismo e de repente se transformaram em arautos do conservadorismo, da intolerância e do ódio.
Ao argumentar com uma amiga, ela me disse que a intolerância e o preconceito sempre estiveram nessas pessoas, nós é que não percebíamos, porque elas dissimulavam bem. É muito mais fácil advogar o preconceito e o ódio, quando feito coletiva e não individualmente.
O auge de minha decepção deu-se agora em 31 de março quando Bolsonaro primeiro propôs a celebração do golpe militar, depois voltou atrás e sugeriu que o golpe fosse rememorado nos quartéis. Não satisfeito, e não resistindo a sua compulsão por louvar torturadores, estranhamente ainda sem autoria, apareceu no Whats App da presidência da República, um vídeo saudando o golpe militar, portanto, a tortura, cassações, fechamento do Congresso e outros tipos de arbítrios.
Alguns incautos ou não sei se já abduzidos pelo ideário de Benito Mussolini, saíram em defesa de Bolsonaro e para desviar as atenções, creio eu, compartilharam postagens contra Karl Marx, contra Cuba e contra a Revolução Russa. Estranhei ainda mais pelo fato que as postagens vieram de pessoas sem o mínimo conhecimento histórico, que possivelmente, nunca leram O Capital, obra máxima de Marx.
Costumo dizer que gosto de debater política e principalmente, sistemas de governo, com quem possui argumentos para defender seu ideário liberal, diferente de minha crença seja no socialismo ou na social democracia.
Tenho amigos liberais que defendem esse ideário, entretanto, acham boa parte do ministério de Bolsonaro, uma excrescência, como me disse um amigo ainda esta semana.
Embora admire a social democracia, cada vez mais, como disse o grande Carlos Heitor Cony, sinto-me um anarquista entristecido, ou talvez mais que isso, desiludido.

Leave a comment

Your email address will not be published.


*


Carregando...