Todos merecem outra chance

Era uma tarde de calor insuportável, o que eu mais queria era um grande copo de suco bem gelado. Percebi que na esquina seguinte havia uma pequena lanchonete. Entrei.
No balcão, um senhor que mais parecia um pigmeu, veio me atender, trazia no ombro uma toalha branca, penso que era para enxugar os copos, mas que às vezes, esquecia e passava no suor do rosto. Gentilmente, perguntou-me o que eu queria, perguntei quais os sucos que ele tinha para eu escolher, havia uma variedade, que fiquei quase sem saber o que escolher, mas optei pelo de abacaxi, parecia ser o mais fresco para o momento.
“Cinco minutos”, ele falou, indo em direção à cozinha, sentei-me rente ao balcão, o ar condicionado me deixou mais tranquila, pois eu parecia estar estressada com tanto calor.
Não havia percebido que, atrás de mim, um homem dormia, trazia junto à mesa um pequeno ventilador, sujo, que girava de um lado para o outro, mas em vão, pois o ar condicionado com mais potência fazia o seu serviço e muito bem.
Fiquei analisando a cena e pensando no por que daquela situação, aquele senhor não parecia estar bêbado, mas notava-se que estava exausto.
O pequeno senhor voltou, trazendo meu suco.
“Calor, não?” eu apenas assenti.
Ele se distanciou do balcão, enxugando o suor da testa com a mesma toalha branca, que continuava em seu ombro. Mascava um pedaço de canudo de plástico.
Peguei dois canudos, olhei para o copo de suco, o qual estava tão claro que pensei por um momento, que ele se esquecera de colocar o abacaxi.
O gelo batia dentro do copo, enquanto eu fazia movimentos circulares com os canudos.
De repente, uma intrusa caiu sobre um dos cubos de gelo, provavelmente
não vencera o vento provocado pelo ventilador, que estava ao lado da mesa e, veio direto para o meu copo.
Uma mosca, pequena, começou a se debater, pedindo ajuda, fiquei ali olhando aquele pequeno ser, batendo suas asas molhadas, pedindo por mais uma chance de vida.
Lembrei-me de uma frase:
“Só você tem o poder de recomeçar sua vida sempre que desejar”, e naquele instante percebi que a decisão competia apenas, a mim, eu decidiria por aquele pequeno ser, mas o que ela faria com esta nova chance de viver?
Eu poderia tirá-la, ela secaria e continuaria sua vida entre comidas podres e fezes, deveria então, deixá-la morrer?
Tudo tem o seu final e seu começo, é o ciclo, pensei. Muitas coisas se passaram em minha cabeça, enquanto aquele inseto lutava contra a morte.
Eu seria seu salvador, naquele momento?
Eu não lhe dei a vida, mas estava em minhas mãos prorrogá-la. Sem querer comparar um inseto com um ser humano, mas lembrei de algumas pessoas que tiveram literalmente a sua segunda chance, não de ser salvas da morte, mas de outras situações perigosas e, infelizmente, continuaram no seu lodaçal da vida, destruindo outras pessoas que viviam ao seu lado.
Parei de divagar e olhei para trás, para ver se o homem já havia acordado, queria ver se ele percebia o tamanho do meu poder, naquele momento.
Quando voltei minha atenção ao copo de suco, e ao ser que ali implorava sua vida, ele não estava mais ali, pois o pigmeu tirara do balcão, sem minha permissão e, quando me dei conta, ele jogara todo o líquido na pia. Sorriu e disse, ainda mascando o pedaço de plástico:
-Vou fazer outro!
A minha indignação era enorme, por isso, não consegui balbuciar palavra alguma.
Fiquei me fazendo questionamentos condicionais, se eu tivesse sido rápida, seu eu não tivesse perdido tempo em análises sem importância, se eu não tivesse feito comparações de novas chances que algumas pessoas perderam, tudo teria sido diferente e, ela que fosse voar onde bem entendesse, pois a minha consciência estaria tranquila.
“Não há o que valha a paz de consciência!”

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